quarta-feira, 24 de julho de 2019
Como queimar em silêncio? - Meu novo livro
Oi, leitores!
Sim, eu sumi por uma eternidade, Foram tantas coisas e tantos acontecimentos... Porém, felizmente estou retornando hoje com uma notícia maravilhosa: meu novo livro já está disponível no Wattpad. Isso mesmo!
Conto com a ajuda de vocês para ler, comentar, votar e divulgar. Amo muito vocês e nunca os esquecerei; posso demorar postar por causa da vida, mas levo vocês sempre comigo e sempre aparecerei por aqui. Muito obrigado por tudo, sempre! <3 font="" nbsp="">3>
O meu novo livro chama-se "Como queimar em silêncio?" e possui a seguinte premissa:
Ser humano limita apreender a vida. Enquanto atuamos performativamente, os animais simplesmente existem, selvagemente desempenham o único papel que a natureza lhes dotou: serem. Se eles são o coração selvagem da vida, suas palavras têm mais credibilidade que as nossas. Logo, nada mais justo que escutá-los, porque por mais humanos que possam parecer, eles não mentem. Em "Como queimar em silêncio?", os animais escrevem, sentem, sofrem, aparecem humanizados e partilham as dificuldades do doloroso processo que é tornar-se adulto. Amor, amizade, medo, autonomia, insegurança e autoconhecimento são apenas alguns dos temas abordados pelas doze cartas presentes no livro para provar que crescer é estar constantemente em chamas.
Espero que gostem e se emocionem com a leitura. Aguardo o feedback de vocês.
Grande abraço!
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
Enxágua, seca e passa?
Estou sentado, bem sentado de pernas cruzadas.
Ouvindo apenas os ruídos do “comigo mesmo”. Fortes, diga-se de passagem. Com o
indicador pressionando a têmpora e os neurônios a fervilhar penso na vida como
uma lavanderia. Sem Vanish? Sem Vanish! Nessa lavanderia nada apaga manchas. Se
você apresenta alguma mácula colorida, vire-se. O máximo que você pode fazer é
mergulhar em águas cristalinamente turvas por demasiadas vezes e conseguir um
leve clareamento.
Louco? Nem tanto! Normal para quem me conhece
pessoalmente. Prosseguindo com o pensamento altamente possível, somos roupas.
De grife, da feira, colorida, monocromática, inteira, rasgada, nova, velha,
enfim, ROUPAS. Resíduos Obscuros de um Universo Pouco Amigável e
Segregador. Passamos o dia em cabides ou
simplesmente jogados em espaços pouco confortáveis. Um puxa daqui, outro dali;
um amassa aqui, outro alisa ali; um rasga aqui, outro costura ali e vamos
sobrevivendo.
Guarda-roupas? Quem disse que todas as roupas têm
acesso? Muitas são jogadas, descartadas como lixo no ambiente (mas um lixo que
será usado novamente, no dia seguinte). Caladas e obedientes moldam-se ao
formato que lhe incubem. Triste. Triste. Muito triste pensar na vida das
roupas, na subserviência e submissão. Que seres detestáveis.
Roupa é um ser? Somos um ser? Eu não sei mais de
nada. Divaguei e me perdi. De acordo com “comigo mesmo”, roupa é um ser
(metaforicamente), pois estou comparando-a com a gente. Mas, na verdade, acho
que roupa é ser tanto quanto somos seres. Dois amontoados moleculares
subservientes.
Já me alonguei demais falando das roupas. O foco
aqui não são elas. Vim falar da lavanderia chamada vida. Por que falei tanto
das roupas? Foi necessário? Se foi ou não foi, cabe a você decidir porque não
vou mais apagar o que já digitei. Vai ficar assim e pronto!
Só sei que a vida é uma lavanderia e somos roupas
sujas. Vivemos na lavanderia tentando nos limpar até não conseguir, rasgar e
desaparecer para sempre. Todos são jogados em grandes máquinas, mergulhados em
água e rotacionados. Com manchas ou sem manchas são lavados, enxaguados,
secados e passados. Mas será que passa mesmo? Só isso é o suficiente? O que é
suficiente para viver? Viver é preenchível, palpável e acabado? Nada passa.
Viver não passa. Manchar não passa. Rasgar não passa. A vida não passa. A vida
te enxágua, seca, passa e te vomita iludindo-te. Na verdade, nada passou e você
está superficialmente liso. Por dentro continua o mesmo e não vai ser na
lavanderia que vai conseguir mudar. Recorra ao quer for possível!
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Sobre olhos e armadilhas
É
que acabou, né? Vai, diz pra mim que acabou só pra eu confirmar, só pra eu me
convencer de que acabou e acabou mesmo. É que nos últimos dias eu tenho
repetido pra mim que já era, entre um gole de café e outro, eu tenho repetido
entre uma lembrança e outra que já deu e que eu preciso te esquecer.
Nem
vale esse sofrimento todo, certo? Vai passar, vai passar. Tô aqui tentando me
convencer de que esse seu sorriso nem é tão lindo assim e que esse par de
olhões eu posso encontrar em qualquer esquina, mas eu já andei em tanta esquina
e nada de olhões em forma de armadilha me pegarem.
A
noite é mais triste sem você, a mesa do bar fica incompleta sem sua cerveja
nela, e minha mão fica incompleta sem a sua pra segurar por cima da mesa. É que
não dá pra rir numa roda de amigos sem ouvir a sua risada, fica feio como um
coral desafinado. É que não dá pra rir sem ver suas covinhas, o defeito
genético mais lindo do mundo. Mas eu rio, fingindo que tá tudo bem e engraçado,
enquanto por dentro eu choro, achando tudo sem graça e cinza.
Eu
queria poder te matar dentro de mim, mas pra te matar eu tenho que matar as
diversas versões que você criou de mim. Eu tenho que matar meu riso preguiçoso
e sossegado ao ver a luz do sol bater na cortina do teu quarto depois de ter
passado a noite toda em teus braços. Eu tenho que matar minha voz de menina
mimada perguntando entre um beijo e outro “por que você não fica comigo? ”. Eu
tenho que matar a minha ingenuidade em acreditar que esse amor era só meu e era
o mais bonito de todo o universo. Tenho que matar meus arrepios quando você
beijava meu pescoço. Matar minha safadeza de chupar seus dedos em lugares
movimentados e depois te intimar a me levar pra um lugar mais calmo e continuar
o que eu comecei.
As
versões que eu criei pra te amar melhor, pra te amar gostoso, pra te amar demais.
É que eu não sei gostar pouco, e gostar muito de ti foi tão bom, até que não
foi o suficiente porque tu não gostava de mim do mesmo jeito, e eu tive que
calar minhas preces de “fica mais um pouco” querendo dizer “fica pra sempre”, e
mandei você ir. E agora acabou, né? Vai,
diz pra mim que acabou só pra eu confirmar, só pra eu me convencer de que
acabou e acabou mesmo.
Converse com a autora:
quarta-feira, 31 de maio de 2017
Sobre felicidade
Ah, essa coisa incrível que invade a vida da gente. Ah... Ah... Ah... FE-LI-CI-DA-DE! Sinta o movimento que sua boca faz ao pronunciar essas sílabas e perceba o bem que te traz. Só com uma simples pronúncia algo muda em você. Felicidade é tudo! Respiro porque é um mecanismo fisiológico e meu corpo recusa-se a viver sem, mas meu espírito sobrevive muito bem só com regulares doses de felicidade. É sempre o melhor remédio! Atrevo-me a dizer que seja o único de cunho universal com um grau de eficiência de cem por cento. Mas como consegui-lo? Como é a sua aparência? Eu não sei. Realmente, não sei. Só sei que a gente sente. Só isso! Pode ser livros, comidas, dinheiro, pessoas e por aí vai. Você só precisa descobrir o que te faz feliz. O que te motiva a viver. Assim, encontrará o remédio. Contudo, não se esqueça que, durante essa sua busca, fórmulas mentirosas e efêmeras serão encontradas, você irá testá-las e poderá se viciar e nunca mais largá-las, mas tenha sempre em mente que seu interior sente mais que seu cérebro e que lhe avisará quando estiver acontecendo algo de errado. Só experimente e sinta!
quarta-feira, 10 de maio de 2017
Corações atentos são desvalorizados: cuidado!
Dar atenção demais a alguém só te deixa invisível.
Doar-se não é a melhor escolha. Pensar por horas antes de escrever uma mensagem
que realmente transmita o que você quer falar, por mais que seja um “oi” com
dois ou três is, não vai te ajudar. As pessoas nascem programadas para fazerem
escolhas erradas e para magoarem-se mutuamente, talvez não seja uma regra, mas
ainda não encontrei exceções. Ser bobo em um mundo de “espertos” é a sua pior
escolha. Pensar em colher uma margarida ou até mesmo plantá-la em um vasinho
meigo e sorridente para presentear um alguém, guardar trocados para comprar
bombons para esse alguém, sonhar com as mãos dadas, as saídas, as festas,
imaginar como seria acordar ao seu lado, só te destrói. Corações atentos são
desvalorizados. É lindo e bonitinho no começo; você até que é notado e ganha alguma
atenção, mas nada muito duradouro, nada que não possa ser trocado por um
coração desatento e devasso recentemente descoberto. Iludir-se não vai te levar
a lugar nenhum, só vai te envolver em sonhos e te banhar com a acetona do
“final feliz”. Endurecer-se para os outros e amolecer-se para si mesmo, talvez,
seja a melhor escolha. Esquecer-se dos devaneios e atentar-se ao
desenvolvimento da vida é a melhor opção. Deus já fez a introdução e está
cuidando da conclusão; apenas viva!
quarta-feira, 3 de maio de 2017
Como posso agradecer?
Oi! Tudo
bem? Hoje vim para agradecer algumas pessoinhas muito especiais. Há dias atrás,
descobri que meus textos estavam sendo trabalhados em sala de aula pela minha
amiga incrível e leitora assídua do Literatudo Textos, Edimara Freire. Fiquei
perplexo e imensamente realizado. Foi tanta felicidade que nem sei o que
escrever. Como assim meus escritos adentraram os muros de uma escola? Alguém
tem noção disso? É tanto frio na barriga que acabo de recriar o iceberg que
colidiu com o Titanic dentro de meu estômago. Sim! Isso mesmo!
Quando
escrevo, sinceramente, não imagino até onde minha mensagem pode ir nem a
quantos pode tocar; só quero escrever e ser lido, nem que por um ser humano, e
nem que esse ser humano seja eu mesmo. Só tenho noção do processo criativo. A
partir do momento que publico, por mais que eu saiba, não acredito que meus
textos podem ir parar nas mãos de infinitas pessoas. Contudo, essa notícia é a
prova de que eles circulam a ponto de irem parar em uma sala de aula. Ainda não
acredito, sério! Só me cabe agradecer, agradecer, agradecer...
Se você
pensa que parou por aí, não parou! Além de eu descobrir isso, recebi algumas
folhas com as respostas dos alunos às perguntas que faço na crônica “Como foi
seu dia? Como vai sua vida?”. Respostas lindas que guardo com o maior cuidado!
Muito obrigado a cada um que dedicou seu tempo a responder meus questionamentos
e se sentiu tocado/ajudado por minha prosa. Só tenho a dizer que estarei sempre
aqui para conversar com vocês sobre os mais variados temas e ajudar no que for
possível. Continuem no caminho do bem e nunca se distanciem de seus sonhos,
pois eles são o melhor combustível para vencer na corrida da vida. Acreditem
sempre no potencial de vocês e compartilhem a felicidade com quem os rodeia. É
bom viver e é melhor ainda sentir-se vivo. Por isso, pulem, cantem, gritem e
leiam... (se não for pedir muito, leiam meus textos).
Muito
obrigado pelo carinho e pelas respostas. Além de saber que meus textos fazem a
diferença na vida de vocês, é uma motivação para que eu não pare de escrever.
MUITO OBRIGADO, de novo! Se você que está lendo é uma das pessoas que me mandou
uma resposta, sinta-se abraçada virtualmente. Se você não mandou nada para mim,
não perca tempo, o que está esperando? Pode mandar! Eu respondo! Se você não
mandou, mas conhece quem mandou, compartilha esse post para que ele chegue até
ela. Assim, cheio de felicidade e convicto de que escrever me move, termino
esse post de agradecimentos.
Ah, só mais
uma coisa: vocês são demais! Meus leitores são os melhores, sem sombra de
dúvidas!!!!!
Um abraço
fraterno em cada um de vocês e até o próximo texto.
quarta-feira, 15 de março de 2017
O que me remói?
O que será que me remoí
neste exato momento? O que dói em mim? O que me machuca? Talvez uma tristeza
camuflada, uma alegria demasiada falsa, um torpor gélido-quente que fosforesce
e transcende minha existência. Uma coisa tão abstrata que suprime por completo
a coisa substantivo e fica a vagar no vazio. Só sinto que dói. Uma gota viva e
vermelha rompe meu vazio escuro. Rasga a tessitura da carne musculosa e instala
o ardor. Não quero sentir. Não sou obrigado a sentir. Clamo pelo gélido e transparente
vapor da coisa salvadora. Ele não vem. Viver talvez não seja tão simples assim.
Viver talvez seja como apalpar brasas em lava e aguentar a dor. Aguentar seja,
talvez, a maior virtude dos homens. Toco a epiderme gélida que ferve por dentro
e quero desagregar alma e corpo. Meu reflexo no líquido salgado acumulado em
meus braços não me reflete mais. O que
sou eu, uma coisa do mundo ou um mundo de coisas? Já quero sentir, transmitir e
descobrir, mas é tão inebriante que morro quente para renascer gélido.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
Morrer é a melhor saída?
Passei
horas pensando seriamente se trataria desse tema aqui. Decido isso, passei
horas pensando no que escrever, quais palavras escolher. Suicídio é um tema
delicado, convenhamos. Todavia, não pode ser tratado como tabu nem ser excluído
das rodas de conversas e da rotina diária.
Por
dia, milhares de pessoas tiram suas próprias vidas, cortam as próprias asas,
caminham mais rápido que o destino e cortam a linha da vida precipitadamente,
inconsequentemente. O que as levam a isso? Eu não vou mentir e dizer que sei,
pois cada ser humano é uma máquina singular detentora de peças únicas e com um
funcionamento próprio, portanto, sou impossibilitado de saber o que fere cada
um, o que torna viver desinteressante. Contudo, infiro que na vida dessas
pessoas falta algo. Uma saudação, um olhar, um sorriso, um carinho, um diálogo,
uma atenção, um afago? Pode ser. Sempre os maiores êxitos são conseguidos
através das pequenas coisas. Por isso, rogo para que aprendamos a olhar o que
nos rodeia por completo, aprendamos a falar com as pessoas, procurar ajudar,
demonstrar, nem que minimamente, que nos importamos com alguém.
Se,
você leitor, está passando por um momento difícil agora e desacredita da vida,
senta, respira profundamente e ouve teu coração bater. Você é uma máquina única
e é também seu próprio mecânico. Conserta as peças. Troca o óleo. Vê a natureza
que o rodeia, sente a luz que preenche o espaço o qual seu corpo ocupa. Aprende
que o mundo é uma concessionária e cada um de nós é um modelo único que precisa
existir para tudo fazer sentido. O fio da vida já é curto por si só, não
precisa que você mesmo o corte. A vida é
curta e cabe a você aproveitá-la ao máximo. A morte nunca foi nem nunca será a
solução para os problemas de ninguém.
Se
você ainda continua triste e quer parar de viver porque não tem com quem
desabafar, saiba que eu estou aqui. Manda uma mensagem para mim que eu te
ajudarei. Não estou brincando! Assim como preciso de você, você pode precisar
de mim. E estou aqui disposto a te ajudar sempre. Confia em mim. Espera somente
chegar ao final do texto e, depois, corre e escreve uma mensagem para mim. Eu
vou te atender.
Enfim,
já ouvi muitos dizerem que fulano suicidou-se porque não aguentava mais viver.
Como assim? Ninguém pode não aguentar mais viver. Lembre-se que as plantas
passam anos, não só um, vários, a espera de chuva. Elas pensam em abandonar o
mundo, beiram a morte, viver torna-se insuportável, mas não desanimam, esperam
as gotas fluidas da água cristalina as tocarem para renovarem-se, erguerem-se
vivamente verdes, sábias e fortes. Para muitos seres humanos isso representaria
o fim, o “não aguento mais”, a escuridão. Entretanto, espelhemo-nos nelas. Sejamos
árvores. Sejamos flores. Sejamos girassóis. Busquemos apenas a luz.
Esqueçamo-nos das trevas. Voltemo-nos sempre para a energia vivificadora da
luz. Vivamos sempre, acima de tudo e de todas as coisas.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Para você
A
vida é feita de fases. As pessoas são feitas de fases. Eu aceito sua fase atual. Quero te ver feliz.
Só isso me importa. Quero que você aprenda o quanto é bom voar sem precisar de
ninguém. Voar sem pressa para voltar porque deixou alguém te esperando. Voar
sem medo de ser feliz. Voar para os destinos mais risíveis. Voar para o nada.
Simplesmente voar. Tomar conta de seus atos. Amadurecer. Curtir-se. Amar-se.
Doar-se a si mesma. Aprontar-se para, quem sabe, convidar alguém para voar com
você. Espero que voe bastante, experimente demasiadamente e perceba o que
realmente te fascina, o que realmente te faz bem, o que merece ser lembrado
durante seus voos. Que você viaje, se entregue ao ar por inteira, sinta sua
vida sendo bagunçada e, com toda a sabedoria adquirida, arrume-a. Que eu também
voe bastante e que nos encontremos em alguma corrente de ar quente e intensa
para voarmos juntos.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Sobre o silêncio
Nenhum barulho. Nada em volta. Talvez eu esteja
diante do maior e mais completo caos. O silêncio nada mais é que o caos, o
todo, o eu complexo encapsulado em algo aparentemente silencioso. O silêncio é
o mundo. Vivo? Sim! Vivo! Visceralmente vivo. Carnalmente perturbador. Dentro
do silêncio tudo cabe. A vida, o eu. Silencio. Renuncio. Grito e quero tudo. Neste
momento clamo por barulho. Rejeito o silêncio. Rejeito a vida. Rejeito o eu.
Rejeito o tudo. Apego-me ao nada. Quero sons. Quero barulho. Quero uma
orquestra. Quero viver cegamente embalado pela mais bela e alegre sinfonia. Dorme
silêncio. Um dia eu te visito. Não quero refletir sobre você. Você é tudo, é
muito completo. Ninguém nunca realmente te decifrou e nem vai te decifrar.
Dorme. Dorme. Deixa-me gritar.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Sobre renovação
Sentado
na areia da praia infinita, observando o vaivém da maré, paro para me preparar
para a renovação. Renovar? Renascer? Sim! Mudar, permanecer, consertar, você
decide. Mais trezentos e sessenta e cinco dias vêm por aí. Você tem a chance de
fazer tudo o que não fez nesses trezentos e tantos dias que já se passaram. Parece
balela, não é? Um discurso um pouco, bastante, repetido, não? Mas pare e pense.
O ano novo é e nunca vai deixar de ser a filosofia de mais trezentos e tantos
dias novos, em branco, esperando ser coloridos. Então, muna-se de cores e
corra. O quadro da vida urge por cor, por forma. Não pare, não espere. Corra!
Pinte o sete, o oito, os trezentos e sessenta e cinco novos números. Qual a
cor? Você decide. Você decide o tom, a intensidade, a forma do traçado. O seu
traço. Único. Responsável por singularizar momentos e colorir o novo ano. Monte
sua arte, faça-a valer trilhões, mas a faça tornar-se tão importante e colossal
que nenhum valor seja capaz de comprá-la. Feliz 2017!
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
Um natal não tão feliz
A
cidade. Papelão. Sonhos. Sujeira. Desejo. Frio. Persistência. Rua. Fé. Fome.
Esperança. Ânsia. O menino. A mãe. O cachorro. Tubarão.
Uma
vida difícil. Véspera de natal. Falta comida. Barriga vazia. A mãe com fome há
cinco dias. O menino alimentado com lixo e esperança. Esperança da visita de
Papai Noel.
Noite.
Escuridão. Frio. Fome. Um barulho. Um possível ho, ho, ho. O menino quase
acorda. Mas volta a dormir. Alimenta o cérebro de esperança. Sonhos. Agonia.
Gemidos. O grito. A mãe.
Dia.
Sol. Natal. Renascimento. O menino com olhos limpos. A visão. Um corpo
esticado. Um velho lençol vermelho o envolvendo. Não era Papai Noel. Sua mãe
experimentava do sono eterno.
O
fim. O cachorro. O corpo. O abraço. O pisca-pisca queimado. O menino. O medo. O
coração queimado. O futuro também queimado.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Livre. Lua. Leve
Em um desses fins de tarde, “a boca da noite” como
costumam chamar, nos quais o alaranjado do sol fervente dá lugar ao azul frio e
escuro da noite eu sentava em minha calçada na cadeira mais traiçoeira de todas
– acredite: quando ela quer ser má ela consegue. Outro dia minha tia subiu nela
para limpar uma prateleira e adivinha o que aconteceu? Isso mesmo, a cadeira
amoleceu as pernas, bombeou e quase derrubou ela. Mas a crônica de hoje não é
sobre as maldades frias da cadeira vermelha. Longe disso! Isso pode ficar para
a próxima. Ah, que fique logo bem claro: ela não tentou nada comigo! Gosto das
coisas explicadas, principalmente para o caso de a cadeira estar, nesse
momento, esmerilhando concentrada em minhas palavras.
Então, estava nesse cenário pitoresco quando olhei
para o céu e além dos pontinhos cor de ouro que surgiam incontrolavelmente
rápido a vi, a Lua. Redonda, grande e de um branco transparente acinzentado.
Ela estava linda. Uma graça. Fechei e coloquei Clarice no colo para ficar
apreciando a Lua. Nesse exato momento, o relógio marcou dezoito horas, o padre
rezou a “Ave Maria”, a vizinha trouxe uma cadeira, juntou-se a mim na calçada e
a minha tia chegou. Pronto! Foi só ela me achar admirando nosso satélite
natural para começar a falar que eu estava apaixonado.
Ouvi aquilo e apenas sorri. Mas meu cérebro
trabalhava: Quem inventou essa história de que só observa a Lua quem está
apaixonado? Por isso, agora lhe pergunto o mesmo, caro leitor. Quero saber sua
opinião sobre isso. Você acha que isto está certo? Olha, nem se esquiva que de
mim você não escapa. Quero ouvi-lo! Mas para facilitar as coisas para você irei
continuar escrevendo e vou contar o que penso disso.
É o seguinte: primeira lei da vivência humana: se
Deus te deu um par de olhos, foi para olhar T. U. D. O! (Juro que não é
propaganda de meu livro, mas se você ainda não leu, basta procurar a opção no
menu para ser direcionado até ele) Olhar qualquer coisa a qualquer momento. Os
olhos servem para apreciar as coisas que não podem ser tocadas por nenhuma
outra parte de nosso corpo. Os olhos desejam, satisfazem-se, denunciam, observam,
amam, comem... Sendo assim, eu, você, tu, ele, nós, vós, eles podemos observar
o que quisermos, o que bem entendermos. Olhar tal coisa não significa tal
coisa. Só você sabe o significado de seus olhares. Portanto, não venha com essa
de que se olhar para a Lua, está apaixonado.
Dito isso, acrescento outra coisinha: por que a
Lua tem de ser sinônimo de amor, romantismo, namoro? Só por que os casais
resolvem se amar durante a noite e usam seus olhos para admirar esse astro não
significa que ele seja símbolo do amor. A Lua é linda e independente! Quem
pensa que ela morre de amores pelo Sol e sofre por não poder estar perto dele
se engana. Ela vive é solteira curtindo a noite com suas inúmeras amigas
douradas e pegando o maior número possível de meteoros. Ela só quer saber de
iluminar, sorrir, espalhar luz e alegria. Amor? Amor não ilumina nada. Depois
de um tempo de luz intensa a escuridão chega para todos. Por isso, a Lua quer
saber de amar os momentos. Muda a cada fase. O tempo nunca está ruim para ela.
Se está cheia de tudo, vira nova. Muda para o novo. Se está minguante, cresce
que é uma beleza. Sofrimento não dura muito para ela. Portanto, quero aqui
desconsertar esse pensamento, pois minha amiga Lua não sugere uma figura
romântica abobada.
Pois é, quando alguém me vir olhando esse astro
inigualável estarei apreciando sua beleza e a singularidade do momento. Para
penar no amor leio meus amigos do Romantismo.
E você, concorda ou discorda? A que conclusão
chegou?
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
10 MIL VISUALIZAÇÕES: 10 fatos sobre mim
Oi!
10 mil acessos! Isso mesmo! Ainda não estou acreditando! Muito obrigado a cada
um que acessou meu blog. Essa marca pode parecer insignificante e pequena para
alguns, mas para mim é gigante, é a realização de um sonho. Muito obrigado a
cada um que partilhou isso comigo. Muito obrigado mesmo! Sintam-se virtualmente
abraçados por mim. Que Deus ilumine a todos e possibilite mais 10 mil acessos.
Vamos comemorar! Gritar! Pular! Sorrir!
#10K (Já vou aproveitar para divulgar a fanpage do blog para vocês curtirem e
pedir para me seguirem aqui no Blogger e no Google +. rsrs)
E,
para comemorar, trago a tag “10 fatos sobre mim”. Espero que gostem!
1
TENHO 18 ANOS
2
FAÇO ANIVERSÁRIO EM 17 DE JANEIRO
3
SOU CAPRICORNIANO
4
MINHA ESCRITORA FAVORITA É CLARICE LISPECTOR
5
SONHO EM SER UM ESCRITOR BEM-SUCEDIDO
6
JÁ CHOREI LENDO LIVROS
7
ODEIO PESSOAS QUE FINGEM SER O QUE NÃO SÃO
8
AMO CACHORROS
9
NÃO ME CONTROLE QUANDO ENTRO NA “ESTANTE VIRTUAL” E ACABO COMPRANDO EM DEMASIA
10
VIVO SONHANDO E PLANEJANDO O MEU FUTURO
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Sobre arriscar
A vida é feita de riscos. Não tenha medo deles.
Arrisque. Não arriscar é não se permitir. É não se entregar. É não
experimentar. É não viver. De que adianta um corpo, uma alma e uma vida, se não
se está experimentando, sentindo, procurando viver? Coloque em sua mente que
mesmo não fazendo nada, ficando apático a tudo, trancando-se em um mundo só
seu, vivendo e convivendo somente consigo mesmo a vida dá um jeito de te mandar
riscos. Você não está imune a eles. Eu não estou imune a eles. Então, se não
podemos nos livrar do problema, fazemo-lo parecer menor, menos feroz e mais
amigável. Atraente para ser enfrentado. Arrisque. Voe sem medo. Pule mesmo.
Podem te achar louco? Claro! Hoje todo mundo acha alguma coisa, mas não se
preocupe. Arrisque, ache sua felicidade e deixe pensarem que você encontrou a
loucura.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
Como foi seu dia? Como vai sua vida?
Hoje vim para conversarmos. Isso mesmo! Quero saber
de você como anda a vida.
Como você está?
Você acordou disposto?
Comeu o suficiente?
Orou?
Agradeceu por ter acordado e visto
o mundo a sua volta?
Conseguiu dar conta de todas as tarefas?
Fez com amor?
Sentiu prazer em realizá-las?
O dia voou ou pousou lentamente sob
os ponteiros daquele lindo relógio que você tem?
Sentiu que estava acompanhado
durante todo o dia?
Deleitou-se ou suportou mais um
dia?
Aconteceu algo de bom?
E de ruim?
Foi bem na escola?
Na faculdade?
Mostrou esses pequenos seres
humanos brancos e delicados que você ostenta na boca em algum momento?
Foi motivo do sorriso de alguém?
Enfim,
aproveitou essas horas preciosas de vida que Deus te ofereceu?
...
Você deve está pensando que enlouqueci, mas
estou sano. Só quero interagir, saber do seu dia. Pode ter sido fácil, difícil,
alegre, triste... Enfim, só sei que foi singular. Foi só seu. Então, gostaria
que fizesse o seguinte: pegasse uma folhinha de papel, um lápis ou uma caneta e
anotasse suas respostas para cada uma dessas perguntas acima. Ah, se você preferir, pode responder no
celular ou deixar nos comentários aqui do blog. Depois, leia suas respostas,
veja como foi seu dia. Se quiser me mandar, mande. Caso contrário, guarde só
para você.
Por que eu estou fazendo isso? O que você vai ganhar
com isso? Isso é só uma tentativa minha de te mostrar que me importo com você e
que o melhor está nas pequenas coisas, que a gente vive em uma correria insana
que não para para pensar no que aconteceu em nosso dia, que esquecemos dos
sorrisos, das pessoas, das atitudes, das faces, dos olhares. Quero ser o alguém
que vai perguntar como foi seu dia. Acredite, muita gente não tem alguém que
pergunte como foi seu dia, como anda a vida, enfim, que se importe. Isso faz muita diferença! Se
não faz para você, sinto muito, mas creio que para algum ser deste mundo
gigante e conturbado isso faz toda a diferença, e é para esse ser que escrevo,
para mostrar que ele pode contar comigo, que eu me importo com ele, com a vida
dele, com o dia dele.
Voltando às perguntas, gostaria de acrescentar que
você deve sempre fazer isso. Todos os dias. Se não tem quem te pergunte como
anda sua vida, como foi seu dia, escreva as respostas dessas perguntas para
você mesmo e guarde as folhinhas, principalmente as dos dias excelentes.
Espero que você olhe para suas respostas, seja lá onde for que elas estejam, e reflita sobre a importância das perguntas simples. Peço que dê mais valor à vida, aos dias, às pequenas coisas. Trate de fazer o que gosta e aproveitar o dia sempre alimentado com boas energias e vestido com sorrisos sinceros. Não viva empurrando com a barriga. Não faça nada obrigado. Não se deixe abalar pela falta de perguntas e mascaramento de respostas. Ame seu dia. Ame o mundo. Ame a vida e agradeça sempre. Claro que dias ruins virão e que você não vai conseguir sair esbanjando felicidade vinte e quatro horas por aí, mas para esses dias use sua folhinha com as respostas de um dia bom. Pensando bem, não importa quão ruim for seu dia, você sempre terá algo de bom para soltar como resposta e nem vai precisar da folhinha de outro dia, vai por mim. Não acredita? Pois bem, acordar todo santo dia, abrir os olhos e vê o colorido do universo não é uma coisa boa, uma resposta alegre e feliz para o “como foi seu dia?” ?
Espero que você olhe para suas respostas, seja lá onde for que elas estejam, e reflita sobre a importância das perguntas simples. Peço que dê mais valor à vida, aos dias, às pequenas coisas. Trate de fazer o que gosta e aproveitar o dia sempre alimentado com boas energias e vestido com sorrisos sinceros. Não viva empurrando com a barriga. Não faça nada obrigado. Não se deixe abalar pela falta de perguntas e mascaramento de respostas. Ame seu dia. Ame o mundo. Ame a vida e agradeça sempre. Claro que dias ruins virão e que você não vai conseguir sair esbanjando felicidade vinte e quatro horas por aí, mas para esses dias use sua folhinha com as respostas de um dia bom. Pensando bem, não importa quão ruim for seu dia, você sempre terá algo de bom para soltar como resposta e nem vai precisar da folhinha de outro dia, vai por mim. Não acredita? Pois bem, acordar todo santo dia, abrir os olhos e vê o colorido do universo não é uma coisa boa, uma resposta alegre e feliz para o “como foi seu dia?” ?
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
O fim do começo
A vida de Alex fluía por entre os dedos de Joana.
Ela sentia o sangue quente de seu amante escorrer por seu braço. Aquilo lhe
dava prazer. Ela se lambuzava com o líquido escarlate e por entre as pernas
descia o prazer. Joana gargalhava e já estava tonta com o cheiro de vida
ultrapassada. Mas ela queria satisfazer-se com tudo o que sobrara de Alex.
Esperneou-se na poça de sangue, molhou a nuca e os cabelos. Por fim, bebeu aquele
sangue todo. Para que o cadáver ficasse limpinho ela passou a língua por
completo em todas as partes de Alex. Enfim ela havia conseguido, fora a última
a se deitar com Alex. Ela se sentia extasiada por isso. Era o fim daquilo tudo.
O quarto estava abafado. Joana levantou-se e
vestiu-se. Tirou a calcinha vermelha e socou-a goela abaixo em Alex.
Delicadamente se virou para a cama e alisou a colcha vermelha eliminando os
amassados. Ajoelhou-se na frente do corpo, sustentou-o em seus braços brancos e
delicados e o colocou sobre a cama. Beijou a testa do morto, que já estava
congelada, e saiu tranquilamente do quarto.
Enquanto descia a escada elegantemente, lembrava o
quanto tinha sido feliz com Alex. Lembrou-se da primeira vez que tinha o visto
há dois anos. Era um homem branco, alto, corpulento e viril. Quando o viu o sangue
ferveu. Seu útero pulou. Queria ser
fertilizada, na verdade estava mais que na hora de ser fertilizada, já tinha
trinta e oito anos.
O restaurante estava um pouco movimentado e ela
tinha vindo acompanhar a irmã num encontro amoroso marcado por telefone. Ela
não fazia ideia de quem era o homem por quem Lívia suspirava. Continuou olhando
para Alex e para sua surpresa ele estava vindo em direção à mesa das duas. Ele
chegou. Sorriu para Joana, mas foi beijar a mão de Lívia. Joana congelou. Seu
útero agora se esvaia com tamanha decepção. O homem por quem ela havia se
interessado era o amado de sua irmã. Ela tomou o restante de suco que tinha no
copo e saiu deixando os dois a sós.
Terminou de descer a escada e sorria ao relembrar
que a irmã fora traída antes mesmo de se casar com Alex. Na noite que antecedia
o casamento de Lívia, Joana vestiu uma calcinha vermelha – a mesma que ela
enfiou goela abaixo no corpo frio e sem vida – e um sutiã preto, acomodou em
seu corpo um vestido que marcava suas curvas e foi até o endereço de Alex. Ao
chegar lá não precisou ter muito trabalho, pois ele não cedeu, a satisfaz na
hora; no chão e sem puder algum.
Dirigiu-se a cozinha para preparar um suco e
enquanto terminava de lamber o sangue que tinha coalhado em seus lábios lembrava
de como fora melhor ainda viver às escondidas com Alex depois que ele havia
casado com a irmã. Como moravam na mesma casa, no momento em que Lívia não
estava em casa ela aproveitava. Seu maior desejo era ser fertilizada por aquele
homem – desejo que ela conservou até hoje. Mas ele não deixava, sempre se
protegia. Ela se irritou com isso e cansou de ser objeto sexual secundário
daquele nojento e resolveu matá-lo. Agora estava com a alma lavada. Contudo,
antes de matá-lo o fez fecundá-la, agora ela era verdadeiramente mulher. Estava renovada. Seu útero fervia. Era como uma
fábrica abandonada há anos que voltava a funcionar. As máquinas trabalhavam, as
chaminés esquentavam e eliminavam fumaça purificadora por todo o íntimo escuro
e gelado de Joana. Ela agora era quente. Era mulher. O calor subia, subia,
subia. Ela queria gritar de prazer. Segurava o cabelo e mordia os lábios.
Queria gritar. Queria mostrar para o mundo como era bom ser mulher.
Seguiu radiante até a geladeira. Mais calma, mas
quente. Queria água para acabar de purificar aquele corpo velho. Queria que um
novo íntimo surgisse. O líquido, cristalino fluído, deveria a percorrer por
dentro e limpar. Era só o começo. A cabeça fervilhava em planos. Joana
continuava velha, mas queria um novo âmago já que agora estava fertilizada.
Abriu a geladeira e ao mesmo tempo em que segurou na porta do eletrodoméstico
algo gelado entrou vagarosamente em suas costelas. Ele sentiu uma dor fina.
Parecia não estar mais se renovando. Algo jorrava para fora dela, algo só dela.
Sentiu novamente a dor, e mais uma vez, e mais uma vez, até que parecia estar
toda se esvaindo. Tudo saia e ela não tinha mais controle. Algo estava errado,
ela tinha certeza que não estava se renovando. Juntou todas as suas forças e
conseguiu, depois de muito esforço, enxergar Lívia sorrindo atrás dela
segurando firmemente uma enorme faca ensanguentada na mão. Tentou ficar de pé,
mas sem sangue ela não era nada. Seu sangue jorrava, jorrava, jorrava. Lívia
gargalhava. Enxergou um mar vermelho vivo. Era bem convidativo. A água brilhava
e parecia ferver. Era um imenso concentrado de vida renovadamente selvagem.
Resplandecia. Joana fechou os olhos e mergulhou no mar. Nunca mais voltou a superfície.
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
A descoberta
Eles
se conheceram na infância. Moravam próximos e brincavam juntos todas as tardes.
Matilde era uma menina linda, adorava usar vestidinhos rosa e não saia de casa
sem seu laço vermelho no cabelo. Joaquim, carinhosamente apelidado por Matilde
de Joca, era muito sapeca, andava na rua e só tomava banho à noite. Cresceram
juntos, choraram juntos, descobriram o mundo, suas bondades e maldades juntos.
Certo
dia, já crescidos, com seus treze aninhos, confessaram algo enquanto brincavam:
–
Eu quero falar uma coisa – disse Matilde.
–
Há dias que quero falar uma coisa para você também – falou Joca.
–
Pois diga logo – desatou Matilde.
–
Não, quero escutar você primeiro – disparou Joca.
–
Eu quero ouvir logo você! Me deixou curiosa – rebateu ela.
–
Não quero falar logo! – disse ele quase irritado.
–
Dá para parar com essa besteira e falar logo isso? Se você não falar, eu não
falarei – gritou Matilde.
Joaquim
ficou meio sem jeito, mas percebeu que não lhe restara alternativa a não ser
falar logo para ela o que sentia. Disse timidamente:
–
Matilde, conheço você há muito tempo, gosto muito de você. Só que de uns dias
para cá gosto ainda mais de você. Não sei como te explicar, mas é um gostar
diferente de quando gostava de você quando tínhamos nossos quatro anos. Gosto
querendo te proteger. Gosto querendo te abraçar. Gosto querendo cuidar de você.
Gosto guardando seu perfume. Gosto fazendo você sorrir. Gosto de ti mais que
tudo.
Matilde
corou e suas bochechas estavam da cor de seu laço. Sempre se mostrara menos
tímida e mais resolvida que Joca, mas naquele momento não sabia o que fazer.
Olhou nos olhos dele, colocou os cabelos atrás das orelhas, sorriu primeiro com
os olhos, depois com a boca e falou:
–
Estou sem palavras. Acredita que o que tinha para te falar era sobre isso?
Também estou gostando diferente de você. Gosto de te ver sendo bobo. Gosto de
tuas tentativas de me agradar. Gosto do teu jeito. Gosto do jeito que me olha.
Joaquim ficou
vermelho, bem vermelho, quase escarlate, eu diria. Estava tão feliz que parecia
ter ganhado asas. Era leve. O corpo não pesava. Não sentia a respiração.
Ninguém mais existia a não ser eles dois. O mundo era alegre. Ele estava bobo.
Voava, voava, até que...
–
Você está bem, Joca? – perguntou Matilde.
–
Oh, estou. Está tudo bem, tudo bem, tudo mesmo.
Joaquim
recuperou o fôlego, continuou sorrindo e acrescentou:
–
O que você acabou de falar é mesmo verdade?
Matilde
sorriu e balançou a cabeça afirmativamente.
Joaquim
retribuiu o sorriso, olhou nos olhos dela, aproximou sua face até que um
pudesse sentir a respiração do outro, fechou os olhos e encostou os lábios nos
dela. Ela aceitou os lábios dele prontamente. Trocaram um selinho. Aquilo foi
indescritível para os dois.
Depois
da descoberta e do selinho, os dois, felizes, muito felizes, se despediram e
foram para casa, pois já era tarde. A noite já vinha chegando.
No
dia seguinte brincaram novamente, beijaram-se novamente e gostaram-se
novamente.
No
ano seguinte brincarem novamente, beijaram-se novamente e gostaram-se
novamente.
Nos
seis anos seguintes cresceram mais, beijaram-se mais, descobriram-se mais e
começaram a namorar sério com o consentimento da família.
Nos
dezoitos anos seguintes amaram-se, casaram-se, tiveram dois filhos, um menino e
uma menina, passaram por sérias dificuldades financeiras, perderam os pais, mas
não deixaram de amar. O amor curou. O amor resolveu. O amor eternizou momentos,
apaziguou ânimos, acalmou almas e solidificou a relação.
Nos dias de hoje
vivem velhinhos, dividem a bengala e o mingau. Sentam-se na calçada e
pacientemente veem a vida passar. Adoram mimar os netos e servem de exemplo
para todos de que o amor é possível. Provam que por mais que o mundo gire, as
mentalidades mudem, as atitudes tornem-se traiçoeiras, as pessoas tornem-se
menos confiáveis, o amor ainda é a solução. Ele quebra e repara. Destrói e
constrói. Envelhece e rejuvenesce. Finda e continua.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Um feliz aniversário
Estava
sentado naquela dura cadeira da recepção do hospital em um domingo angustiante
aguardando notícias de meu amiguinho Gabriel, que se encontrava na U. T. I. De
repente, uma ambulância chegou. Aquilo roubou temporariamente meu olhar e minha
atenção. Dela saiu em uma maca uma linda menininha da mesma faixa etária que
Gabriel. Loirinha e pálida deveria ter vindo de uma festa de aniversário direto
para o hospital – um chapéu colorido em formato de cone e um vermelho nariz de
palhaço pendurados em sua mão justificam minha hipótese. Atrás dos enfermeiros
corria uma mulher desmanchando-se em lágrimas que não pôde ir para o centro
cirúrgico e teve de ficar na recepção. Sentou-se ao meu lado e pôs-se a chorar.
Olhei-a timidamente e ofereci um copo d’água. Ela aceitou e quando deu o último
gole resolvi interagir:
–
O que aconteceu? Aquela é sua filha?
–
Sim, aquela é minha única filha. Era o aniversário dela... minha Isabela
completava seus doze anos até que... até que... – respirou fundo e novamente
seu rosto cobria-se de lágrimas – ela passou mal, muito mal.
–
E ela já tem algum problema?
–
Sim, ela tem insuficiência cardíaca. Ela já teve algumas crises, mas a de hoje
nem se compara as outras. A de hoje foi muito forte mesmo! Os médicos já haviam
me dito que a solução para o problema dela seria o transplante de um novo
coração, mas é muito difícil. Ela é a primeira da fila para o caso de aparecer
um transplante, mas eu não conto muito com isso. É muito difícil encontrar
alguém que seja um doador no Brasil, um país repleto de seres humanos egoístas,
mentirosos e hipócritas.
Concordei
com sua fala e continuamos, pois, sentados ali. Rezando e sem receber nenhuma
informação. Cabisbaixos, tentando alimentar os melhores pensamentos, mas assumo
que estava difícil. Os ponteiros do relógio giravam e com eles meu estômago
girava junto. Unhas? Eu não tinha mais.
Minha
aflição diminuiu quando vi o médico caminhar em minha direção. A mãe de
Gabriel, D. Zélia, que estava algumas cadeiras distantes de mim e mais aflita e
desesperada, veio correndo. O médico chegou. Sua cara não era animadora.
–
Vocês estão acompanhando o Gabriel?
–
Sim! – respondemos uníssonos.
–
Nós fizemos vários procedimentos, tentamos de tudo para reanimá-lo, mas
infelizmente Gabriel teve morte cerebral.
O
médico nem concluiu sua fala e D. Zélia caiu de joelhos gritando aos prantos.
Pedia para que trouxessem seu filho de volta. Eu? Meu rosto se desmanchava em
lágrimas e eu nem havia me dado conta. Tentava limpar e ser forte, mas a dor era
grande demais. As lágrimas descontroladamente rolavam, mas tive de me conter
para ouvir o que o médico ainda ia falar. Ele chamou a mãe de Isabela para
junto de nós e disse:
–
Seu filho se foi, D. Zélia, mas não fique triste, pois ele evitou que
tivéssemos duas crianças mortas em uma única noite. Graças ao seu ato de tornar
todos os membros de sua família doadores de órgãos, Gabriel salvou a vida de
Isabela doando seu coraçãozinho para ela – nesse momento o médico apoiou a mão
no ombro da mãe de Isabela e soltou um sorriso comportado.
D.
Zélia recompôs-se e foi fortemente abraçada pela mulher que teve a filha salva
por Gabriel. Limpando suas lágrimas ela disse:
–
Eu posso apenas imaginar a dor que você deve estar sentindo, mas quero que
saiba que eu e minha filha seremos eternamente gratas a você e ao seu filho.
Ele, um desconhecido, que nem convidado para o aniversário dela fora, deu o
melhor presente de todos: a vida.
D.
Zélia confirmou com a cabeça e veio me abraçar. Nesse momento, já controlado e
conformado, sussurrei ao seu ouvido: “não fique triste. Ele pode ter falecido,
mas seu coração ainda pulsa, e com certeza, pulsará muito mais. Pulsará sonhos,
alegrias, conquistas, enfim, uma nova vida.”
Ela
concordou comigo, limpou as lágrimas e juntos sentamos, bebemos água e ficamos
esperando para vermos como estava Isabela. Particularmente, estava doido para
ver aquela face pura sorrir cheia de vida e trazer um pouco de alegria para a
segunda-feira que se aproximava.































