quarta-feira, 23 de novembro de 2016
Como foi seu dia? Como vai sua vida?
Hoje vim para conversarmos. Isso mesmo! Quero saber
de você como anda a vida.
Como você está?
Você acordou disposto?
Comeu o suficiente?
Orou?
Agradeceu por ter acordado e visto
o mundo a sua volta?
Conseguiu dar conta de todas as tarefas?
Fez com amor?
Sentiu prazer em realizá-las?
O dia voou ou pousou lentamente sob
os ponteiros daquele lindo relógio que você tem?
Sentiu que estava acompanhado
durante todo o dia?
Deleitou-se ou suportou mais um
dia?
Aconteceu algo de bom?
E de ruim?
Foi bem na escola?
Na faculdade?
Mostrou esses pequenos seres
humanos brancos e delicados que você ostenta na boca em algum momento?
Foi motivo do sorriso de alguém?
Enfim,
aproveitou essas horas preciosas de vida que Deus te ofereceu?
...
Você deve está pensando que enlouqueci, mas
estou sano. Só quero interagir, saber do seu dia. Pode ter sido fácil, difícil,
alegre, triste... Enfim, só sei que foi singular. Foi só seu. Então, gostaria
que fizesse o seguinte: pegasse uma folhinha de papel, um lápis ou uma caneta e
anotasse suas respostas para cada uma dessas perguntas acima. Ah, se você preferir, pode responder no
celular ou deixar nos comentários aqui do blog. Depois, leia suas respostas,
veja como foi seu dia. Se quiser me mandar, mande. Caso contrário, guarde só
para você.
Por que eu estou fazendo isso? O que você vai ganhar
com isso? Isso é só uma tentativa minha de te mostrar que me importo com você e
que o melhor está nas pequenas coisas, que a gente vive em uma correria insana
que não para para pensar no que aconteceu em nosso dia, que esquecemos dos
sorrisos, das pessoas, das atitudes, das faces, dos olhares. Quero ser o alguém
que vai perguntar como foi seu dia. Acredite, muita gente não tem alguém que
pergunte como foi seu dia, como anda a vida, enfim, que se importe. Isso faz muita diferença! Se
não faz para você, sinto muito, mas creio que para algum ser deste mundo
gigante e conturbado isso faz toda a diferença, e é para esse ser que escrevo,
para mostrar que ele pode contar comigo, que eu me importo com ele, com a vida
dele, com o dia dele.
Voltando às perguntas, gostaria de acrescentar que
você deve sempre fazer isso. Todos os dias. Se não tem quem te pergunte como
anda sua vida, como foi seu dia, escreva as respostas dessas perguntas para
você mesmo e guarde as folhinhas, principalmente as dos dias excelentes.
Espero que você olhe para suas respostas, seja lá onde for que elas estejam, e reflita sobre a importância das perguntas simples. Peço que dê mais valor à vida, aos dias, às pequenas coisas. Trate de fazer o que gosta e aproveitar o dia sempre alimentado com boas energias e vestido com sorrisos sinceros. Não viva empurrando com a barriga. Não faça nada obrigado. Não se deixe abalar pela falta de perguntas e mascaramento de respostas. Ame seu dia. Ame o mundo. Ame a vida e agradeça sempre. Claro que dias ruins virão e que você não vai conseguir sair esbanjando felicidade vinte e quatro horas por aí, mas para esses dias use sua folhinha com as respostas de um dia bom. Pensando bem, não importa quão ruim for seu dia, você sempre terá algo de bom para soltar como resposta e nem vai precisar da folhinha de outro dia, vai por mim. Não acredita? Pois bem, acordar todo santo dia, abrir os olhos e vê o colorido do universo não é uma coisa boa, uma resposta alegre e feliz para o “como foi seu dia?” ?
Espero que você olhe para suas respostas, seja lá onde for que elas estejam, e reflita sobre a importância das perguntas simples. Peço que dê mais valor à vida, aos dias, às pequenas coisas. Trate de fazer o que gosta e aproveitar o dia sempre alimentado com boas energias e vestido com sorrisos sinceros. Não viva empurrando com a barriga. Não faça nada obrigado. Não se deixe abalar pela falta de perguntas e mascaramento de respostas. Ame seu dia. Ame o mundo. Ame a vida e agradeça sempre. Claro que dias ruins virão e que você não vai conseguir sair esbanjando felicidade vinte e quatro horas por aí, mas para esses dias use sua folhinha com as respostas de um dia bom. Pensando bem, não importa quão ruim for seu dia, você sempre terá algo de bom para soltar como resposta e nem vai precisar da folhinha de outro dia, vai por mim. Não acredita? Pois bem, acordar todo santo dia, abrir os olhos e vê o colorido do universo não é uma coisa boa, uma resposta alegre e feliz para o “como foi seu dia?” ?
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
O fim do começo
A vida de Alex fluía por entre os dedos de Joana.
Ela sentia o sangue quente de seu amante escorrer por seu braço. Aquilo lhe
dava prazer. Ela se lambuzava com o líquido escarlate e por entre as pernas
descia o prazer. Joana gargalhava e já estava tonta com o cheiro de vida
ultrapassada. Mas ela queria satisfazer-se com tudo o que sobrara de Alex.
Esperneou-se na poça de sangue, molhou a nuca e os cabelos. Por fim, bebeu aquele
sangue todo. Para que o cadáver ficasse limpinho ela passou a língua por
completo em todas as partes de Alex. Enfim ela havia conseguido, fora a última
a se deitar com Alex. Ela se sentia extasiada por isso. Era o fim daquilo tudo.
O quarto estava abafado. Joana levantou-se e
vestiu-se. Tirou a calcinha vermelha e socou-a goela abaixo em Alex.
Delicadamente se virou para a cama e alisou a colcha vermelha eliminando os
amassados. Ajoelhou-se na frente do corpo, sustentou-o em seus braços brancos e
delicados e o colocou sobre a cama. Beijou a testa do morto, que já estava
congelada, e saiu tranquilamente do quarto.
Enquanto descia a escada elegantemente, lembrava o
quanto tinha sido feliz com Alex. Lembrou-se da primeira vez que tinha o visto
há dois anos. Era um homem branco, alto, corpulento e viril. Quando o viu o sangue
ferveu. Seu útero pulou. Queria ser
fertilizada, na verdade estava mais que na hora de ser fertilizada, já tinha
trinta e oito anos.
O restaurante estava um pouco movimentado e ela
tinha vindo acompanhar a irmã num encontro amoroso marcado por telefone. Ela
não fazia ideia de quem era o homem por quem Lívia suspirava. Continuou olhando
para Alex e para sua surpresa ele estava vindo em direção à mesa das duas. Ele
chegou. Sorriu para Joana, mas foi beijar a mão de Lívia. Joana congelou. Seu
útero agora se esvaia com tamanha decepção. O homem por quem ela havia se
interessado era o amado de sua irmã. Ela tomou o restante de suco que tinha no
copo e saiu deixando os dois a sós.
Terminou de descer a escada e sorria ao relembrar
que a irmã fora traída antes mesmo de se casar com Alex. Na noite que antecedia
o casamento de Lívia, Joana vestiu uma calcinha vermelha – a mesma que ela
enfiou goela abaixo no corpo frio e sem vida – e um sutiã preto, acomodou em
seu corpo um vestido que marcava suas curvas e foi até o endereço de Alex. Ao
chegar lá não precisou ter muito trabalho, pois ele não cedeu, a satisfaz na
hora; no chão e sem puder algum.
Dirigiu-se a cozinha para preparar um suco e
enquanto terminava de lamber o sangue que tinha coalhado em seus lábios lembrava
de como fora melhor ainda viver às escondidas com Alex depois que ele havia
casado com a irmã. Como moravam na mesma casa, no momento em que Lívia não
estava em casa ela aproveitava. Seu maior desejo era ser fertilizada por aquele
homem – desejo que ela conservou até hoje. Mas ele não deixava, sempre se
protegia. Ela se irritou com isso e cansou de ser objeto sexual secundário
daquele nojento e resolveu matá-lo. Agora estava com a alma lavada. Contudo,
antes de matá-lo o fez fecundá-la, agora ela era verdadeiramente mulher. Estava renovada. Seu útero fervia. Era como uma
fábrica abandonada há anos que voltava a funcionar. As máquinas trabalhavam, as
chaminés esquentavam e eliminavam fumaça purificadora por todo o íntimo escuro
e gelado de Joana. Ela agora era quente. Era mulher. O calor subia, subia,
subia. Ela queria gritar de prazer. Segurava o cabelo e mordia os lábios.
Queria gritar. Queria mostrar para o mundo como era bom ser mulher.
Seguiu radiante até a geladeira. Mais calma, mas
quente. Queria água para acabar de purificar aquele corpo velho. Queria que um
novo íntimo surgisse. O líquido, cristalino fluído, deveria a percorrer por
dentro e limpar. Era só o começo. A cabeça fervilhava em planos. Joana
continuava velha, mas queria um novo âmago já que agora estava fertilizada.
Abriu a geladeira e ao mesmo tempo em que segurou na porta do eletrodoméstico
algo gelado entrou vagarosamente em suas costelas. Ele sentiu uma dor fina.
Parecia não estar mais se renovando. Algo jorrava para fora dela, algo só dela.
Sentiu novamente a dor, e mais uma vez, e mais uma vez, até que parecia estar
toda se esvaindo. Tudo saia e ela não tinha mais controle. Algo estava errado,
ela tinha certeza que não estava se renovando. Juntou todas as suas forças e
conseguiu, depois de muito esforço, enxergar Lívia sorrindo atrás dela
segurando firmemente uma enorme faca ensanguentada na mão. Tentou ficar de pé,
mas sem sangue ela não era nada. Seu sangue jorrava, jorrava, jorrava. Lívia
gargalhava. Enxergou um mar vermelho vivo. Era bem convidativo. A água brilhava
e parecia ferver. Era um imenso concentrado de vida renovadamente selvagem.
Resplandecia. Joana fechou os olhos e mergulhou no mar. Nunca mais voltou a superfície.
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
A descoberta
Eles
se conheceram na infância. Moravam próximos e brincavam juntos todas as tardes.
Matilde era uma menina linda, adorava usar vestidinhos rosa e não saia de casa
sem seu laço vermelho no cabelo. Joaquim, carinhosamente apelidado por Matilde
de Joca, era muito sapeca, andava na rua e só tomava banho à noite. Cresceram
juntos, choraram juntos, descobriram o mundo, suas bondades e maldades juntos.
Certo
dia, já crescidos, com seus treze aninhos, confessaram algo enquanto brincavam:
–
Eu quero falar uma coisa – disse Matilde.
–
Há dias que quero falar uma coisa para você também – falou Joca.
–
Pois diga logo – desatou Matilde.
–
Não, quero escutar você primeiro – disparou Joca.
–
Eu quero ouvir logo você! Me deixou curiosa – rebateu ela.
–
Não quero falar logo! – disse ele quase irritado.
–
Dá para parar com essa besteira e falar logo isso? Se você não falar, eu não
falarei – gritou Matilde.
Joaquim
ficou meio sem jeito, mas percebeu que não lhe restara alternativa a não ser
falar logo para ela o que sentia. Disse timidamente:
–
Matilde, conheço você há muito tempo, gosto muito de você. Só que de uns dias
para cá gosto ainda mais de você. Não sei como te explicar, mas é um gostar
diferente de quando gostava de você quando tínhamos nossos quatro anos. Gosto
querendo te proteger. Gosto querendo te abraçar. Gosto querendo cuidar de você.
Gosto guardando seu perfume. Gosto fazendo você sorrir. Gosto de ti mais que
tudo.
Matilde
corou e suas bochechas estavam da cor de seu laço. Sempre se mostrara menos
tímida e mais resolvida que Joca, mas naquele momento não sabia o que fazer.
Olhou nos olhos dele, colocou os cabelos atrás das orelhas, sorriu primeiro com
os olhos, depois com a boca e falou:
–
Estou sem palavras. Acredita que o que tinha para te falar era sobre isso?
Também estou gostando diferente de você. Gosto de te ver sendo bobo. Gosto de
tuas tentativas de me agradar. Gosto do teu jeito. Gosto do jeito que me olha.
Joaquim ficou
vermelho, bem vermelho, quase escarlate, eu diria. Estava tão feliz que parecia
ter ganhado asas. Era leve. O corpo não pesava. Não sentia a respiração.
Ninguém mais existia a não ser eles dois. O mundo era alegre. Ele estava bobo.
Voava, voava, até que...
–
Você está bem, Joca? – perguntou Matilde.
–
Oh, estou. Está tudo bem, tudo bem, tudo mesmo.
Joaquim
recuperou o fôlego, continuou sorrindo e acrescentou:
–
O que você acabou de falar é mesmo verdade?
Matilde
sorriu e balançou a cabeça afirmativamente.
Joaquim
retribuiu o sorriso, olhou nos olhos dela, aproximou sua face até que um
pudesse sentir a respiração do outro, fechou os olhos e encostou os lábios nos
dela. Ela aceitou os lábios dele prontamente. Trocaram um selinho. Aquilo foi
indescritível para os dois.
Depois
da descoberta e do selinho, os dois, felizes, muito felizes, se despediram e
foram para casa, pois já era tarde. A noite já vinha chegando.
No
dia seguinte brincaram novamente, beijaram-se novamente e gostaram-se
novamente.
No
ano seguinte brincarem novamente, beijaram-se novamente e gostaram-se
novamente.
Nos
seis anos seguintes cresceram mais, beijaram-se mais, descobriram-se mais e
começaram a namorar sério com o consentimento da família.
Nos
dezoitos anos seguintes amaram-se, casaram-se, tiveram dois filhos, um menino e
uma menina, passaram por sérias dificuldades financeiras, perderam os pais, mas
não deixaram de amar. O amor curou. O amor resolveu. O amor eternizou momentos,
apaziguou ânimos, acalmou almas e solidificou a relação.
Nos dias de hoje
vivem velhinhos, dividem a bengala e o mingau. Sentam-se na calçada e
pacientemente veem a vida passar. Adoram mimar os netos e servem de exemplo
para todos de que o amor é possível. Provam que por mais que o mundo gire, as
mentalidades mudem, as atitudes tornem-se traiçoeiras, as pessoas tornem-se
menos confiáveis, o amor ainda é a solução. Ele quebra e repara. Destrói e
constrói. Envelhece e rejuvenesce. Finda e continua.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Um feliz aniversário
Estava
sentado naquela dura cadeira da recepção do hospital em um domingo angustiante
aguardando notícias de meu amiguinho Gabriel, que se encontrava na U. T. I. De
repente, uma ambulância chegou. Aquilo roubou temporariamente meu olhar e minha
atenção. Dela saiu em uma maca uma linda menininha da mesma faixa etária que
Gabriel. Loirinha e pálida deveria ter vindo de uma festa de aniversário direto
para o hospital – um chapéu colorido em formato de cone e um vermelho nariz de
palhaço pendurados em sua mão justificam minha hipótese. Atrás dos enfermeiros
corria uma mulher desmanchando-se em lágrimas que não pôde ir para o centro
cirúrgico e teve de ficar na recepção. Sentou-se ao meu lado e pôs-se a chorar.
Olhei-a timidamente e ofereci um copo d’água. Ela aceitou e quando deu o último
gole resolvi interagir:
–
O que aconteceu? Aquela é sua filha?
–
Sim, aquela é minha única filha. Era o aniversário dela... minha Isabela
completava seus doze anos até que... até que... – respirou fundo e novamente
seu rosto cobria-se de lágrimas – ela passou mal, muito mal.
–
E ela já tem algum problema?
–
Sim, ela tem insuficiência cardíaca. Ela já teve algumas crises, mas a de hoje
nem se compara as outras. A de hoje foi muito forte mesmo! Os médicos já haviam
me dito que a solução para o problema dela seria o transplante de um novo
coração, mas é muito difícil. Ela é a primeira da fila para o caso de aparecer
um transplante, mas eu não conto muito com isso. É muito difícil encontrar
alguém que seja um doador no Brasil, um país repleto de seres humanos egoístas,
mentirosos e hipócritas.
Concordei
com sua fala e continuamos, pois, sentados ali. Rezando e sem receber nenhuma
informação. Cabisbaixos, tentando alimentar os melhores pensamentos, mas assumo
que estava difícil. Os ponteiros do relógio giravam e com eles meu estômago
girava junto. Unhas? Eu não tinha mais.
Minha
aflição diminuiu quando vi o médico caminhar em minha direção. A mãe de
Gabriel, D. Zélia, que estava algumas cadeiras distantes de mim e mais aflita e
desesperada, veio correndo. O médico chegou. Sua cara não era animadora.
–
Vocês estão acompanhando o Gabriel?
–
Sim! – respondemos uníssonos.
–
Nós fizemos vários procedimentos, tentamos de tudo para reanimá-lo, mas
infelizmente Gabriel teve morte cerebral.
O
médico nem concluiu sua fala e D. Zélia caiu de joelhos gritando aos prantos.
Pedia para que trouxessem seu filho de volta. Eu? Meu rosto se desmanchava em
lágrimas e eu nem havia me dado conta. Tentava limpar e ser forte, mas a dor era
grande demais. As lágrimas descontroladamente rolavam, mas tive de me conter
para ouvir o que o médico ainda ia falar. Ele chamou a mãe de Isabela para
junto de nós e disse:
–
Seu filho se foi, D. Zélia, mas não fique triste, pois ele evitou que
tivéssemos duas crianças mortas em uma única noite. Graças ao seu ato de tornar
todos os membros de sua família doadores de órgãos, Gabriel salvou a vida de
Isabela doando seu coraçãozinho para ela – nesse momento o médico apoiou a mão
no ombro da mãe de Isabela e soltou um sorriso comportado.
D.
Zélia recompôs-se e foi fortemente abraçada pela mulher que teve a filha salva
por Gabriel. Limpando suas lágrimas ela disse:
–
Eu posso apenas imaginar a dor que você deve estar sentindo, mas quero que
saiba que eu e minha filha seremos eternamente gratas a você e ao seu filho.
Ele, um desconhecido, que nem convidado para o aniversário dela fora, deu o
melhor presente de todos: a vida.
D.
Zélia confirmou com a cabeça e veio me abraçar. Nesse momento, já controlado e
conformado, sussurrei ao seu ouvido: “não fique triste. Ele pode ter falecido,
mas seu coração ainda pulsa, e com certeza, pulsará muito mais. Pulsará sonhos,
alegrias, conquistas, enfim, uma nova vida.”
Ela
concordou comigo, limpou as lágrimas e juntos sentamos, bebemos água e ficamos
esperando para vermos como estava Isabela. Particularmente, estava doido para
ver aquela face pura sorrir cheia de vida e trazer um pouco de alegria para a
segunda-feira que se aproximava.
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
A cura
Marta
é uma mulher ímpar. Magra, alta, rancorosa, briguenta, adora uma confusão e um bom
cigarro, principalmente após a janta. Passa a vida dedicando-se ao lar e ao
marido. É uma excelente artesã. Crochê, tricô, costura. Sua principal
característica é com certeza sua personalidade um tanto agressiva
linguisticamente falando. Vive a falar palavrões e a dizer tudo o que pensa
olho no olho.
Mora
em um sobrado. Velho, grande, desgastado, rachado, sujo e desarrumado. A casa
vive de reformas. Recentemente trocaram o telhado. Até que ficou bonitinho.
Vermelho, bem vermelho! O piso está um horror! O pouco e ralo cimento que
resistiu a ação do tempo desprega do solo e cria gigantescos buracos na sala de
estar. A calçada está velha e desgastada assim como Marta. Quantas pessoas já
pisaram ali? Quantas crianças já correram ali? Quantos gols já foram
comemorados ali? Quantas fofocas já foram reveladas ali? Quantos bêbados já
dormiram ali? – quando digo bêbados refiro-me ao marido de Marta que já bebeu,
caiu e dormiu na calçada inúmeras vezes.
Marta
gosta muito de futebol. Todos os domingos põe a velha e branca cadeira de
plástico na calçada anciã, liga a televisão no máximo, pega uma bacia de
pipoca, coloca algum líquido no copo e começa a gritar loucamente assistindo ao
jogo de futebol. Grita, pula, xinga, mas não quebra a televisão, pois não vai
ser fácil comprar uma nova.
Ela não tem muitas amigas. Para falar a verdade, pouquíssimas pessoas frequentam a sua casa. Sua única amiga e frequentadora assídua de sua casa é Fátima, uma mulher enigmática, de olhos dissimulados, cheia de problemas. As duas adoram conversar e pedir conselhos uma a outra. Quando Marta precisa viajar para o Rio de Janeiro ela é quem fica cuidando da casa e trazendo comida para o marido da amiga. Ela traz o almoço e a janta e está sempre presente na casa auxiliando o homem no que ele precisar. Doa-se ao marido de Marta, Deusinho, um curandeiro viciado em álcool, que adora branco e ama o final de semana, pois bebe até a madrugada. Durante a semana trabalha muito, seu terreiro é muito procurado. É corpo possuído, é inveja, é chifre, é maldição, é amor, é tudo! O local de trabalho do homem fica atrás do velho sobrado. É um terreiro cercado por altas e frondosas mangueiras, grande e de barro vermelho, um vermelho sangrento. Durante a noite acontecem as rodas. Gritos, gritos, gritos... palmas, cânticos, danças... oferendas, preto, sangue... Todos de branco, tudo a luz de velas.
Deusinho
e Marta têm uma vida um pouco complicada. Vivem a brigar. Quando Deusinho bebe,
ela nem espera ele acordar para a confusão começar. Palavras de baixo calão
“voam”, chinelos voam, vasos voam e pratos também. A confusão só termina quando
Deusinho vai para seu terreiro e finge não ouvir nada do que a mulher berra.
Marta
sofre muito com o marido e sempre conta tudo para sua melhor amiga. Todavia,
não busca a separação por medo de ficar sozinha e ninguém a querer mais, pois
ela já está velha, 49 anos. Fátima sempre a ouve e aconselha mesmo com os
inúmeros problemas que tem – foi devido a isso que conheceu Marta e Deusinho.
Quando ela tinha brigado com o marido e parecia estar sofrendo uma maldição
resolveu procurar um curandeiro o mais rápido possível para cuidar de sua vida.
Assim, conheceu Deusinho e, diga se de passagem, adorou o que viu. A partir daí
sempre que ela está com um problema, seja ele físico ou espiritual, ela procura
Deusinho durante a noite – além de tratar dos espíritos ele também tem rezas e
garrafadas para as dores que consomem a vivacidade dos seres humanos.
Em
uma dessas noites escuras, libidinosas e neblinosas, Fátima mostrou sua real
face. Tudo estava escuro e sombrio. Fátima estava como de costume possuída pelo
desejo de possuir Deusinho. Como já era costume trocarem carícias durante a
noite e nos períodos em que a amiga estava longe, ela usaria a desculpa de
sempre – a insuportável dor que tinha em seu joelho, que a atrapalhava até para
andar. Chegou viva, os olhos brilhavam, o cabelo de tão penteado seguia o ritmo
do vento que o lambia, a pele hidratada e perfumada esperava ansiosamente pelo
toque bruto e forte da mão calejada de Deusinho, a boca estupidamente vermelha
e o vestido de tão apertado moldava uma falsa silhueta no corpo velho e gordo
da mulher.
–
Boa noite, amiga! Meu dia foi péssimo! Essa dor no meu joelho está cada vez
pior, hoje estou movimentando muito pouco minha perna esquerda.
–
Coitada! Sente que vou chamar Deusinho, ele vai rezar em seu joelho.
E
assim saiu Marta, correu a procura de Deusinho. Achou-o se perfumando e
trocando de roupa em seu terreiro.
–
Fátima está na calçada esperando por ti para rezar naquele joelho doente dela.
–
Mande ela entrar e diga que estarei esperando aqui no terreiro. Ah, não deixe
ninguém aparecer aqui enquanto ela não sair, pois hoje tentarei incorporar um
médico e tentarei curar de uma vez por todas o joelho de Fátima.
Marta
saiu e foi dar o recado à amiga. Fátima, usando de todo o seu cinismo, pediu
ajuda a Marta para chegar até o terreiro argumentando que a dor estava até
impossibilitando-a de andar. Marta deixou os dois a sós e saiu, mas sem
perceber deixou cair seu isqueiro quando voltava.
Assim
que Marta saiu os dois começaram a se curar. Vorazmente Deusinho mordia Fátima
e ela retribuía. O clima esquentou e os dois se curavam de prazer.
Marta
acabara de jantar e como de costume tinha de fumar um cigarro. Aquele fumo
envolvido por um pedaço de papel frágil acalmava-a. Pegou o cigarro, colocou a
mão no primeiro bolso e não encontrou o isqueiro. Procurou em todos os outros e
nada. Andou pela casa, conferiu no quarto, olhou na cozinha, mas nada
encontrou. Lembrou-se então, que quando foi deixar a amiga no terreiro estava
com o objeto no bolso. Como o vício é controlador ela não se conteve e foi
buscar o objeto desrespeitando a ordem do marido. “– Eu vou bem caladinha para
não atrapalhar e volto rapidinho.”
E
ela foi.
Quando
abriu a porta viu logo seu isqueiro brilhar. Agachou e pegou-o. Quando levantou
a cabeça e já ia virar às costas dirigindo-se novamente à porta seus olhos
ferveram. Ela viu o que nunca quisera ver. Deusinho satisfazia Fátima de um
jeito que nunca satisfez Marta. A pobre mulher sentia-se um lixo, uma humana
usada e acima de tudo traída. Não sabia o que fazer. Apenas saiu rapidamente e
chorou até secarem as lágrimas. Sua raiva e espontaneidade de nada lhe valeram
naquele momento. Ela ficou sem voz, sem ação e ficou com mais medo ainda de
perder seu único e miserável marido, aquele que por mais que não a consumisse
por completo deitava sempre com ela.
Chorou,
mas optou por nada fazer. Aguardou os dois saírem, despediu-se da amiga e foi
dormir junta a Deusinho. Dormiu e sonhou com o dia em que Deusinho iria
encontrar a cura para o joelho da amiga – provavelmente, no dia em que ele
enjoar de Fátima.
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
Lembranças
Escute enquanto lê:
Lembra de quando corríamos juntos de porta em porta?
De quando assustávamos os vizinhos mais velhos? De quando nos escondíamos em
nossa casinha da árvore? De quando você me olhava com um sorrisinho no canto da
boca, apertava minha bochecha e eu retribuía acariciando seu cabelo vivamente
brilhoso? Éramos duas crianças ímpares. Dois “pestinhas” como muitos diziam.
Duas almas que se completavam. Doce e salgado. Frio e calor. Razão e emoção.
Alegria e tristeza. Choro e sorriso.
Lembra do dia que doamos nossos brinquedos – o que
sobrou deles? Como crescemos do dia para
a noite!
Lembra da minha primeira carteira? De seu primeiro
salto? De quando você quase caiu na calçada tentando se equilibrar nele? Da
penugem que era minha primeira barba? Da primeira vez que saímos sozinhos? De
nossa primeira noitada? De nosso primeiro beijo, nosso primeiro “eu te amo”,
nosso namoro? De nossa primeira vez? De nossas juras? De nosso noivado? Que dia
incrível! O começo da materialização de um sentimento tão puro.
Lembra do dia mais importante de nossas vidas? De
como eu estava nervoso e como você estava linda? De como eu segurava as lágrimas?
De como você sorria e soltava as lágrimas? De nosso sonoro sim?
Lembra de nossa casa? De como você organizou tudo do
seu jeitinho? De todo o trabalho que tive? Do sofá aconchegante no qual
assistimos a diversos filmes? De nossas conquistas, nosso trabalho, nossas
contas, nossa vida de adulto?
Lembra daquela tarde? Da notícia? De como eu era o
homem mais feliz do mundo? De como eu mimei você durante os nove meses? De como
foi lindo o nascimento dela? De como passamos noites acordados?
Lembra de como envelhecemos? De como nos preocupamos
com o trabalho? De como pouco nos falávamos? De como nos cansamos de tudo? De
como a rotina estava um inferno?
Lembra de nossa primeira briga? De como você chorou?
Eu chorei escondido. Chorei muito. De como depois da primeira outras vieram e
multiplicaram-se? Como esquecer, não é?
Lembra da mala, do último olhar, da buzina? Eu
estava saindo. Foi difícil, mas foi o melhor.
Lembra? Você ainda lembra? Você ainda lembra de mim?
Lembra de nós?
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Sobre saudade
Coisinha,
estou com saudade de você. É como se um pedaço meu estivesse em um lugar
distante. Estou com saudade de seu cabelo, de seu olhar, de seu sorriso, de sua
pele, de seu jeito. Até de você mandando em mim, acredita? Queria te ter por
perto. Queria poder te abraçar. Queria desabafar. Queria seus olhos para eu
mergulhar bem fundo. Queria vê-los refletindo minha face. Queria uma alma para
me escutar. Queria te tocar, falar com gesto o quão importante você é para mim.
Essa saudade maltrata. Não sei qual o remédio, se é que tem. Talvez, o único
remédio seja você, seja te encontrar. No entanto, enquanto não corro para te
apertar, consolo-me com as palavras. Elas ajudam! Dizem o que uma boca tímida
não ousa pronunciar. Transferem para o papel os tão escondidos e pusilânimes sentimentos
de meu coração.






