quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Como foi seu dia? Como vai sua vida?


Hoje vim para conversarmos. Isso mesmo! Quero saber de você como anda a vida.
Como você está?
Você acordou disposto?
Comeu o suficiente?
Orou?
Agradeceu por ter acordado e visto o mundo a sua volta?
Conseguiu dar conta de todas as tarefas?
Fez com amor?
Sentiu prazer em realizá-las?
O dia voou ou pousou lentamente sob os ponteiros daquele lindo relógio que você tem?
Sentiu que estava acompanhado durante todo o dia?
Deleitou-se ou suportou mais um dia?
Aconteceu algo de bom?
E de ruim?
Foi bem na escola?
Na faculdade?
Mostrou esses pequenos seres humanos brancos e delicados que você ostenta na boca em algum momento?
Foi motivo do sorriso de alguém?
            Enfim, aproveitou essas horas preciosas de vida que Deus te ofereceu?
...
Você deve está pensando que enlouqueci, mas estou sano. Só quero interagir, saber do seu dia. Pode ter sido fácil, difícil, alegre, triste... Enfim, só sei que foi singular. Foi só seu. Então, gostaria que fizesse o seguinte: pegasse uma folhinha de papel, um lápis ou uma caneta e anotasse suas respostas para cada uma dessas perguntas acima. Ah, se você preferir, pode responder no celular ou deixar nos comentários aqui do blog. Depois, leia suas respostas, veja como foi seu dia. Se quiser me mandar, mande. Caso contrário, guarde só para você.
Por que eu estou fazendo isso? O que você vai ganhar com isso? Isso é só uma tentativa minha de te mostrar que me importo com você e que o melhor está nas pequenas coisas, que a gente vive em uma correria insana que não para para pensar no que aconteceu em nosso dia, que esquecemos dos sorrisos, das pessoas, das atitudes, das faces, dos olhares. Quero ser o alguém que vai perguntar como foi seu dia. Acredite, muita gente não tem alguém que pergunte como foi seu dia, como anda a vida, enfim,  que se importe. Isso faz muita diferença! Se não faz para você, sinto muito, mas creio que para algum ser deste mundo gigante e conturbado isso faz toda a diferença, e é para esse ser que escrevo, para mostrar que ele pode contar comigo, que eu me importo com ele, com a vida dele, com o dia dele.
Voltando às perguntas, gostaria de acrescentar que você deve sempre fazer isso. Todos os dias. Se não tem quem te pergunte como anda sua vida, como foi seu dia, escreva as respostas dessas perguntas para você mesmo e guarde as folhinhas, principalmente as dos dias excelentes. 
Espero que você olhe para suas respostas, seja lá onde for que elas estejam, e reflita sobre a importância das perguntas simples. Peço que dê mais valor à vida, aos dias, às pequenas coisas. Trate de fazer o que gosta e aproveitar o dia sempre alimentado com boas energias e vestido com sorrisos sinceros. Não viva empurrando com a barriga. Não faça nada obrigado. Não se deixe abalar pela falta de perguntas e mascaramento de respostas. Ame seu dia. Ame o mundo. Ame a vida e agradeça sempre. Claro que dias ruins virão e que você não vai conseguir sair esbanjando felicidade vinte e quatro horas por aí, mas para esses dias use sua folhinha com as respostas de um dia bom. Pensando bem, não importa quão ruim for seu dia, você sempre terá algo de bom para soltar como resposta e nem vai precisar da folhinha de outro dia, vai por mim. Não acredita? Pois bem, acordar todo santo dia, abrir os olhos e vê o colorido do universo não é uma coisa boa, uma resposta alegre e feliz para o “como foi seu dia?” ?

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O fim do começo


A vida de Alex fluía por entre os dedos de Joana. Ela sentia o sangue quente de seu amante escorrer por seu braço. Aquilo lhe dava prazer. Ela se lambuzava com o líquido escarlate e por entre as pernas descia o prazer. Joana gargalhava e já estava tonta com o cheiro de vida ultrapassada. Mas ela queria satisfazer-se com tudo o que sobrara de Alex. Esperneou-se na poça de sangue, molhou a nuca e os cabelos. Por fim, bebeu aquele sangue todo. Para que o cadáver ficasse limpinho ela passou a língua por completo em todas as partes de Alex. Enfim ela havia conseguido, fora a última a se deitar com Alex. Ela se sentia extasiada por isso. Era o fim daquilo tudo.
O quarto estava abafado. Joana levantou-se e vestiu-se. Tirou a calcinha vermelha e socou-a goela abaixo em Alex. Delicadamente se virou para a cama e alisou a colcha vermelha eliminando os amassados. Ajoelhou-se na frente do corpo, sustentou-o em seus braços brancos e delicados e o colocou sobre a cama. Beijou a testa do morto, que já estava congelada, e saiu tranquilamente do quarto.
Enquanto descia a escada elegantemente, lembrava o quanto tinha sido feliz com Alex. Lembrou-se da primeira vez que tinha o visto há dois anos. Era um homem branco, alto, corpulento e viril. Quando o viu o sangue ferveu.  Seu útero pulou. Queria ser fertilizada, na verdade estava mais que na hora de ser fertilizada, já tinha trinta e oito anos.
O restaurante estava um pouco movimentado e ela tinha vindo acompanhar a irmã num encontro amoroso marcado por telefone. Ela não fazia ideia de quem era o homem por quem Lívia suspirava. Continuou olhando para Alex e para sua surpresa ele estava vindo em direção à mesa das duas. Ele chegou. Sorriu para Joana, mas foi beijar a mão de Lívia. Joana congelou. Seu útero agora se esvaia com tamanha decepção. O homem por quem ela havia se interessado era o amado de sua irmã. Ela tomou o restante de suco que tinha no copo e saiu deixando os dois a sós.
Terminou de descer a escada e sorria ao relembrar que a irmã fora traída antes mesmo de se casar com Alex. Na noite que antecedia o casamento de Lívia, Joana vestiu uma calcinha vermelha – a mesma que ela enfiou goela abaixo no corpo frio e sem vida – e um sutiã preto, acomodou em seu corpo um vestido que marcava suas curvas e foi até o endereço de Alex. Ao chegar lá não precisou ter muito trabalho, pois ele não cedeu, a satisfaz na hora; no chão e sem puder algum.
Dirigiu-se a cozinha para preparar um suco e enquanto terminava de lamber o sangue que tinha coalhado em seus lábios lembrava de como fora melhor ainda viver às escondidas com Alex depois que ele havia casado com a irmã. Como moravam na mesma casa, no momento em que Lívia não estava em casa ela aproveitava. Seu maior desejo era ser fertilizada por aquele homem – desejo que ela conservou até hoje. Mas ele não deixava, sempre se protegia. Ela se irritou com isso e cansou de ser objeto sexual secundário daquele nojento e resolveu matá-lo. Agora estava com a alma lavada. Contudo, antes de matá-lo o fez fecundá-la, agora ela era verdadeiramente mulher. Estava renovada. Seu útero fervia. Era como uma fábrica abandonada há anos que voltava a funcionar. As máquinas trabalhavam, as chaminés esquentavam e eliminavam fumaça purificadora por todo o íntimo escuro e gelado de Joana. Ela agora era quente. Era mulher. O calor subia, subia, subia. Ela queria gritar de prazer. Segurava o cabelo e mordia os lábios. Queria gritar. Queria mostrar para o mundo como era bom ser mulher.
Seguiu radiante até a geladeira. Mais calma, mas quente. Queria água para acabar de purificar aquele corpo velho. Queria que um novo íntimo surgisse. O líquido, cristalino fluído, deveria a percorrer por dentro e limpar. Era só o começo. A cabeça fervilhava em planos. Joana continuava velha, mas queria um novo âmago já que agora estava fertilizada. Abriu a geladeira e ao mesmo tempo em que segurou na porta do eletrodoméstico algo gelado entrou vagarosamente em suas costelas. Ele sentiu uma dor fina. Parecia não estar mais se renovando. Algo jorrava para fora dela, algo só dela. Sentiu novamente a dor, e mais uma vez, e mais uma vez, até que parecia estar toda se esvaindo. Tudo saia e ela não tinha mais controle. Algo estava errado, ela tinha certeza que não estava se renovando. Juntou todas as suas forças e conseguiu, depois de muito esforço, enxergar Lívia sorrindo atrás dela segurando firmemente uma enorme faca ensanguentada na mão. Tentou ficar de pé, mas sem sangue ela não era nada. Seu sangue jorrava, jorrava, jorrava. Lívia gargalhava. Enxergou um mar vermelho vivo. Era bem convidativo. A água brilhava e parecia ferver. Era um imenso concentrado de vida renovadamente selvagem. Resplandecia. Joana fechou os olhos e mergulhou no mar. Nunca mais voltou a superfície. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A descoberta


Eles se conheceram na infância. Moravam próximos e brincavam juntos todas as tardes. Matilde era uma menina linda, adorava usar vestidinhos rosa e não saia de casa sem seu laço vermelho no cabelo. Joaquim, carinhosamente apelidado por Matilde de Joca, era muito sapeca, andava na rua e só tomava banho à noite. Cresceram juntos, choraram juntos, descobriram o mundo, suas bondades e maldades juntos.
Certo dia, já crescidos, com seus treze aninhos, confessaram algo enquanto brincavam:
– Eu quero falar uma coisa – disse Matilde.
– Há dias que quero falar uma coisa para você também – falou Joca.
– Pois diga logo – desatou Matilde.
– Não, quero escutar você primeiro – disparou Joca.
– Eu quero ouvir logo você! Me deixou curiosa – rebateu ela.
– Não quero falar logo! – disse ele quase irritado.
– Dá para parar com essa besteira e falar logo isso? Se você não falar, eu não falarei – gritou Matilde.
Joaquim ficou meio sem jeito, mas percebeu que não lhe restara alternativa a não ser falar logo para ela o que sentia. Disse timidamente:
– Matilde, conheço você há muito tempo, gosto muito de você. Só que de uns dias para cá gosto ainda mais de você. Não sei como te explicar, mas é um gostar diferente de quando gostava de você quando tínhamos nossos quatro anos. Gosto querendo te proteger. Gosto querendo te abraçar. Gosto querendo cuidar de você. Gosto guardando seu perfume. Gosto fazendo você sorrir. Gosto de ti mais que tudo.
Matilde corou e suas bochechas estavam da cor de seu laço. Sempre se mostrara menos tímida e mais resolvida que Joca, mas naquele momento não sabia o que fazer. Olhou nos olhos dele, colocou os cabelos atrás das orelhas, sorriu primeiro com os olhos, depois com a boca e falou:
– Estou sem palavras. Acredita que o que tinha para te falar era sobre isso? Também estou gostando diferente de você. Gosto de te ver sendo bobo. Gosto de tuas tentativas de me agradar. Gosto do teu jeito. Gosto do jeito que me olha.
Joaquim ficou vermelho, bem vermelho, quase escarlate, eu diria. Estava tão feliz que parecia ter ganhado asas. Era leve. O corpo não pesava. Não sentia a respiração. Ninguém mais existia a não ser eles dois. O mundo era alegre. Ele estava bobo. Voava, voava, até que...
– Você está bem, Joca? – perguntou Matilde.
– Oh, estou. Está tudo bem, tudo bem, tudo mesmo.
Joaquim recuperou o fôlego, continuou sorrindo e acrescentou:
– O que você acabou de falar é mesmo verdade?
Matilde sorriu e balançou a cabeça afirmativamente.
Joaquim retribuiu o sorriso, olhou nos olhos dela, aproximou sua face até que um pudesse sentir a respiração do outro, fechou os olhos e encostou os lábios nos dela. Ela aceitou os lábios dele prontamente. Trocaram um selinho. Aquilo foi indescritível para os dois.
Depois da descoberta e do selinho, os dois, felizes, muito felizes, se despediram e foram para casa, pois já era tarde. A noite já vinha chegando.
No dia seguinte brincaram novamente, beijaram-se novamente e gostaram-se novamente.
No ano seguinte brincarem novamente, beijaram-se novamente e gostaram-se novamente.
Nos seis anos seguintes cresceram mais, beijaram-se mais, descobriram-se mais e começaram a namorar sério com o consentimento da família.
Nos dezoitos anos seguintes amaram-se, casaram-se, tiveram dois filhos, um menino e uma menina, passaram por sérias dificuldades financeiras, perderam os pais, mas não deixaram de amar. O amor curou. O amor resolveu. O amor eternizou momentos, apaziguou ânimos, acalmou almas e solidificou a relação.
Nos dias de hoje vivem velhinhos, dividem a bengala e o mingau. Sentam-se na calçada e pacientemente veem a vida passar. Adoram mimar os netos e servem de exemplo para todos de que o amor é possível. Provam que por mais que o mundo gire, as mentalidades mudem, as atitudes tornem-se traiçoeiras, as pessoas tornem-se menos confiáveis, o amor ainda é a solução. Ele quebra e repara. Destrói e constrói. Envelhece e rejuvenesce. Finda e continua.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Um feliz aniversário


Estava sentado naquela dura cadeira da recepção do hospital em um domingo angustiante aguardando notícias de meu amiguinho Gabriel, que se encontrava na U. T. I. De repente, uma ambulância chegou. Aquilo roubou temporariamente meu olhar e minha atenção. Dela saiu em uma maca uma linda menininha da mesma faixa etária que Gabriel. Loirinha e pálida deveria ter vindo de uma festa de aniversário direto para o hospital – um chapéu colorido em formato de cone e um vermelho nariz de palhaço pendurados em sua mão justificam minha hipótese. Atrás dos enfermeiros corria uma mulher desmanchando-se em lágrimas que não pôde ir para o centro cirúrgico e teve de ficar na recepção. Sentou-se ao meu lado e pôs-se a chorar. Olhei-a timidamente e ofereci um copo d’água. Ela aceitou e quando deu o último gole resolvi interagir:
– O que aconteceu? Aquela é sua filha?
– Sim, aquela é minha única filha. Era o aniversário dela... minha Isabela completava seus doze anos até que... até que... – respirou fundo e novamente seu rosto cobria-se de lágrimas – ela passou mal, muito mal.
– E ela já tem algum problema?
– Sim, ela tem insuficiência cardíaca. Ela já teve algumas crises, mas a de hoje nem se compara as outras. A de hoje foi muito forte mesmo! Os médicos já haviam me dito que a solução para o problema dela seria o transplante de um novo coração, mas é muito difícil. Ela é a primeira da fila para o caso de aparecer um transplante, mas eu não conto muito com isso. É muito difícil encontrar alguém que seja um doador no Brasil, um país repleto de seres humanos egoístas, mentirosos e hipócritas.
Concordei com sua fala e continuamos, pois, sentados ali. Rezando e sem receber nenhuma informação. Cabisbaixos, tentando alimentar os melhores pensamentos, mas assumo que estava difícil. Os ponteiros do relógio giravam e com eles meu estômago girava junto. Unhas? Eu não tinha mais.
Minha aflição diminuiu quando vi o médico caminhar em minha direção. A mãe de Gabriel, D. Zélia, que estava algumas cadeiras distantes de mim e mais aflita e desesperada, veio correndo. O médico chegou. Sua cara não era animadora.
– Vocês estão acompanhando o Gabriel?
– Sim! – respondemos uníssonos.
– Nós fizemos vários procedimentos, tentamos de tudo para reanimá-lo, mas infelizmente Gabriel teve morte cerebral.
O médico nem concluiu sua fala e D. Zélia caiu de joelhos gritando aos prantos. Pedia para que trouxessem seu filho de volta. Eu? Meu rosto se desmanchava em lágrimas e eu nem havia me dado conta. Tentava limpar e ser forte, mas a dor era grande demais. As lágrimas descontroladamente rolavam, mas tive de me conter para ouvir o que o médico ainda ia falar. Ele chamou a mãe de Isabela para junto de nós e disse:
– Seu filho se foi, D. Zélia, mas não fique triste, pois ele evitou que tivéssemos duas crianças mortas em uma única noite. Graças ao seu ato de tornar todos os membros de sua família doadores de órgãos, Gabriel salvou a vida de Isabela doando seu coraçãozinho para ela – nesse momento o médico apoiou a mão no ombro da mãe de Isabela e soltou um sorriso comportado.
D. Zélia recompôs-se e foi fortemente abraçada pela mulher que teve a filha salva por Gabriel. Limpando suas lágrimas ela disse:
– Eu posso apenas imaginar a dor que você deve estar sentindo, mas quero que saiba que eu e minha filha seremos eternamente gratas a você e ao seu filho. Ele, um desconhecido, que nem convidado para o aniversário dela fora, deu o melhor presente de todos: a vida.
D. Zélia confirmou com a cabeça e veio me abraçar. Nesse momento, já controlado e conformado, sussurrei ao seu ouvido: “não fique triste. Ele pode ter falecido, mas seu coração ainda pulsa, e com certeza, pulsará muito mais. Pulsará sonhos, alegrias, conquistas, enfim, uma nova vida.”
Ela concordou comigo, limpou as lágrimas e juntos sentamos, bebemos água e ficamos esperando para vermos como estava Isabela. Particularmente, estava doido para ver aquela face pura sorrir cheia de vida e trazer um pouco de alegria para a segunda-feira que se aproximava.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A cura


Marta é uma mulher ímpar. Magra, alta, rancorosa, briguenta, adora uma confusão e um bom cigarro, principalmente após a janta. Passa a vida dedicando-se ao lar e ao marido. É uma excelente artesã. Crochê, tricô, costura. Sua principal característica é com certeza sua personalidade um tanto agressiva linguisticamente falando. Vive a falar palavrões e a dizer tudo o que pensa olho no olho.
Mora em um sobrado. Velho, grande, desgastado, rachado, sujo e desarrumado. A casa vive de reformas. Recentemente trocaram o telhado. Até que ficou bonitinho. Vermelho, bem vermelho! O piso está um horror! O pouco e ralo cimento que resistiu a ação do tempo desprega do solo e cria gigantescos buracos na sala de estar. A calçada está velha e desgastada assim como Marta. Quantas pessoas já pisaram ali? Quantas crianças já correram ali? Quantos gols já foram comemorados ali? Quantas fofocas já foram reveladas ali? Quantos bêbados já dormiram ali? – quando digo bêbados refiro-me ao marido de Marta que já bebeu, caiu e dormiu na calçada inúmeras vezes.
Marta gosta muito de futebol. Todos os domingos põe a velha e branca cadeira de plástico na calçada anciã, liga a televisão no máximo, pega uma bacia de pipoca, coloca algum líquido no copo e começa a gritar loucamente assistindo ao jogo de futebol. Grita, pula, xinga, mas não quebra a televisão, pois não vai ser fácil comprar uma nova.
Ela não tem muitas amigas. Para falar a verdade, pouquíssimas pessoas frequentam a sua casa. Sua única amiga e frequentadora assídua de sua casa é Fátima, uma mulher enigmática, de olhos dissimulados, cheia de problemas. As duas adoram conversar e pedir conselhos uma a outra. Quando Marta precisa viajar para o Rio de Janeiro ela é quem fica cuidando da casa e trazendo comida para o marido da amiga. Ela traz o almoço e a janta e está sempre presente na casa auxiliando o homem no que ele precisar. Doa-se ao marido de Marta, Deusinho, um curandeiro viciado em álcool, que adora branco e ama o final de semana, pois bebe até a madrugada. Durante a semana trabalha muito, seu terreiro é muito procurado. É corpo possuído, é inveja, é chifre, é maldição, é amor, é tudo! O local de trabalho do homem fica atrás do velho sobrado. É um terreiro cercado por altas e frondosas mangueiras, grande e de barro vermelho, um vermelho sangrento. Durante a noite acontecem as rodas. Gritos, gritos, gritos... palmas, cânticos, danças... oferendas, preto, sangue... Todos de branco, tudo a luz de velas.
Deusinho e Marta têm uma vida um pouco complicada. Vivem a brigar. Quando Deusinho bebe, ela nem espera ele acordar para a confusão começar. Palavras de baixo calão “voam”, chinelos voam, vasos voam e pratos também. A confusão só termina quando Deusinho vai para seu terreiro e finge não ouvir nada do que a mulher berra.
Marta sofre muito com o marido e sempre conta tudo para sua melhor amiga. Todavia, não busca a separação por medo de ficar sozinha e ninguém a querer mais, pois ela já está velha, 49 anos. Fátima sempre a ouve e aconselha mesmo com os inúmeros problemas que tem – foi devido a isso que conheceu Marta e Deusinho. Quando ela tinha brigado com o marido e parecia estar sofrendo uma maldição resolveu procurar um curandeiro o mais rápido possível para cuidar de sua vida. Assim, conheceu Deusinho e, diga se de passagem, adorou o que viu. A partir daí sempre que ela está com um problema, seja ele físico ou espiritual, ela procura Deusinho durante a noite – além de tratar dos espíritos ele também tem rezas e garrafadas para as dores que consomem a vivacidade dos seres humanos.
Em uma dessas noites escuras, libidinosas e neblinosas, Fátima mostrou sua real face. Tudo estava escuro e sombrio. Fátima estava como de costume possuída pelo desejo de possuir Deusinho. Como já era costume trocarem carícias durante a noite e nos períodos em que a amiga estava longe, ela usaria a desculpa de sempre – a insuportável dor que tinha em seu joelho, que a atrapalhava até para andar. Chegou viva, os olhos brilhavam, o cabelo de tão penteado seguia o ritmo do vento que o lambia, a pele hidratada e perfumada esperava ansiosamente pelo toque bruto e forte da mão calejada de Deusinho, a boca estupidamente vermelha e o vestido de tão apertado moldava uma falsa silhueta no corpo velho e gordo da mulher.
– Boa noite, amiga! Meu dia foi péssimo! Essa dor no meu joelho está cada vez pior, hoje estou movimentando muito pouco minha perna esquerda.
– Coitada! Sente que vou chamar Deusinho, ele vai rezar em seu joelho.
E assim saiu Marta, correu a procura de Deusinho. Achou-o se perfumando e trocando de roupa em seu terreiro.

– Fátima está na calçada esperando por ti para rezar naquele joelho doente dela.
– Mande ela entrar e diga que estarei esperando aqui no terreiro. Ah, não deixe ninguém aparecer aqui enquanto ela não sair, pois hoje tentarei incorporar um médico e tentarei curar de uma vez por todas o joelho de Fátima.
Marta saiu e foi dar o recado à amiga. Fátima, usando de todo o seu cinismo, pediu ajuda a Marta para chegar até o terreiro argumentando que a dor estava até impossibilitando-a de andar. Marta deixou os dois a sós e saiu, mas sem perceber deixou cair seu isqueiro quando voltava.
Assim que Marta saiu os dois começaram a se curar. Vorazmente Deusinho mordia Fátima e ela retribuía. O clima esquentou e os dois se curavam de prazer.
Marta acabara de jantar e como de costume tinha de fumar um cigarro. Aquele fumo envolvido por um pedaço de papel frágil acalmava-a. Pegou o cigarro, colocou a mão no primeiro bolso e não encontrou o isqueiro. Procurou em todos os outros e nada. Andou pela casa, conferiu no quarto, olhou na cozinha, mas nada encontrou. Lembrou-se então, que quando foi deixar a amiga no terreiro estava com o objeto no bolso. Como o vício é controlador ela não se conteve e foi buscar o objeto desrespeitando a ordem do marido. “– Eu vou bem caladinha para não atrapalhar e volto rapidinho.”
E ela foi.
Quando abriu a porta viu logo seu isqueiro brilhar. Agachou e pegou-o. Quando levantou a cabeça e já ia virar às costas dirigindo-se novamente à porta seus olhos ferveram. Ela viu o que nunca quisera ver. Deusinho satisfazia Fátima de um jeito que nunca satisfez Marta. A pobre mulher sentia-se um lixo, uma humana usada e acima de tudo traída. Não sabia o que fazer. Apenas saiu rapidamente e chorou até secarem as lágrimas. Sua raiva e espontaneidade de nada lhe valeram naquele momento. Ela ficou sem voz, sem ação e ficou com mais medo ainda de perder seu único e miserável marido, aquele que por mais que não a consumisse por completo deitava sempre com ela.
Chorou, mas optou por nada fazer. Aguardou os dois saírem, despediu-se da amiga e foi dormir junta a Deusinho. Dormiu e sonhou com o dia em que Deusinho iria encontrar a cura para o joelho da amiga – provavelmente, no dia em que ele enjoar de Fátima.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Lembranças



Escute enquanto lê:


Lembra de quando corríamos juntos de porta em porta? De quando assustávamos os vizinhos mais velhos? De quando nos escondíamos em nossa casinha da árvore? De quando você me olhava com um sorrisinho no canto da boca, apertava minha bochecha e eu retribuía acariciando seu cabelo vivamente brilhoso? Éramos duas crianças ímpares. Dois “pestinhas” como muitos diziam. Duas almas que se completavam. Doce e salgado. Frio e calor. Razão e emoção. Alegria e tristeza. Choro e sorriso.
Lembra do dia que doamos nossos brinquedos – o que sobrou deles?  Como crescemos do dia para a noite!
Lembra da minha primeira carteira? De seu primeiro salto? De quando você quase caiu na calçada tentando se equilibrar nele? Da penugem que era minha primeira barba? Da primeira vez que saímos sozinhos? De nossa primeira noitada? De nosso primeiro beijo, nosso primeiro “eu te amo”, nosso namoro? De nossa primeira vez? De nossas juras? De nosso noivado? Que dia incrível! O começo da materialização de um sentimento tão puro.
Lembra do dia mais importante de nossas vidas? De como eu estava nervoso e como você estava linda? De como eu segurava as lágrimas? De como você sorria e soltava as lágrimas? De nosso sonoro sim?
Lembra de nossa casa? De como você organizou tudo do seu jeitinho? De todo o trabalho que tive? Do sofá aconchegante no qual assistimos a diversos filmes? De nossas conquistas, nosso trabalho, nossas contas, nossa vida de adulto?
Lembra daquela tarde? Da notícia? De como eu era o homem mais feliz do mundo? De como eu mimei você durante os nove meses? De como foi lindo o nascimento dela? De como passamos noites acordados?
Lembra de como envelhecemos? De como nos preocupamos com o trabalho? De como pouco nos falávamos? De como nos cansamos de tudo? De como a rotina estava um inferno?
Lembra de nossa primeira briga? De como você chorou? Eu chorei escondido. Chorei muito. De como depois da primeira outras vieram e multiplicaram-se? Como esquecer, não é?
Lembra da mala, do último olhar, da buzina? Eu estava saindo. Foi difícil, mas foi o melhor.
Lembra? Você ainda lembra? Você ainda lembra de mim? Lembra de nós?

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Sobre saudade


Coisinha, estou com saudade de você. É como se um pedaço meu estivesse em um lugar distante. Estou com saudade de seu cabelo, de seu olhar, de seu sorriso, de sua pele, de seu jeito. Até de você mandando em mim, acredita? Queria te ter por perto. Queria poder te abraçar. Queria desabafar. Queria seus olhos para eu mergulhar bem fundo. Queria vê-los refletindo minha face. Queria uma alma para me escutar. Queria te tocar, falar com gesto o quão importante você é para mim. Essa saudade maltrata. Não sei qual o remédio, se é que tem. Talvez, o único remédio seja você, seja te encontrar. No entanto, enquanto não corro para te apertar, consolo-me com as palavras. Elas ajudam! Dizem o que uma boca tímida não ousa pronunciar. Transferem para o papel os tão escondidos e pusilânimes sentimentos de meu coração.