quarta-feira, 24 de agosto de 2016
O toque
Ele
saiu do ventre de sua mãe e ao contrário das outras crianças, que choravam ao
seu redor, não enxergou as cores, as formas, a vida. Gemeu baixinho, encolheu o
pequenino corpo e debateu-se na escuridão até sentir-se envolto por dois braços
acolhedores. D. Esmeralda o colocou para dormir e guardou para si as
preocupações e convicções que só o ser mãe é capaz de ter.
Passou
sua infância na fazenda do avô convivendo com coloridíssimas borboletas,
alegres pássaros e verdes pastagens que ele sabia que existiam, mas que seus
olhos não eram capazes de enxergar. Passava a maior parte do tempo sozinho e
recluso em seu mundo escuro. As outras crianças não o incluíam em suas
brincadeiras, ao não ser na “cabra-cega”, na qual ele era sempre a cabra.
Todavia, Cecílio não se chateava por não
brincar com as outras crianças. O que ele adorava mesmo era sair sozinho e
entrar na mata, esbarrar nas árvores, sentir o cheiro da vida, ouvir cantos de
seres desconhecidos por sua visão. O que ele gostava mesmo era de se sentir
livre. Liberto dos cuidados excessivos de todos que o rodeavam. Liberdade, ele
só procurava isso. Desenvolveu-se em meio a essa liberdade.
O
tempo seguiu seu curso indesviável e Cecílio tornou-se adolescente. Mudou de
fisionomia e de endereço. Agora, mora com a mãe no Bairro das Flores Alegres.
Ainda continua recluso, ainda mais eu diria. Não tem amigos e seu único
passatempo é ir à pracinha para tentar sentir a liberdade que ele sentia na
fazenda. Contudo, o máximo que consegue é uma suave brisa com um leve frescor
perfumado de rosas tocando sua face. Por mais que tente cheirar a liberdade,
aqui ele não corre, não esbarra nas árvores, não ouve cantos de seres
desconhecidos.
Mas
sentindo ou não o cheiro da liberdade, toda manhã ele está na pracinha. E foi
em uma dessas manhãs que ele conheceu Cristina. O sol flutuava amarelo no céu
azulado. As rosas desabrochavam lentamente e as flores observavam atentas
aquele espetáculo. Algumas crianças brincavam no parquinho.
Cecílio
sentou-se no banco como de costume, cruzou as pernas e ficou balançando a
bengala desorientadamente. Alguns pombos o sobrevoaram na esperança de ganharem
migalhas do pão que ele levava a boca.
Ele continuou a morder fortemente o pão quando percebeu que não estava
sozinho naquele banco. Acomodou-se como quem marca território, mas não fez mais
que isso. Alguns minutos depois, o vento soprou e algo como longos cabelos bateram
em seu rosto. Nesse momento ele percebeu que sua companhia de banco era uma
mulher. Ficou curioso para saber como ela era, mas guardou a curiosidade para
si.
Minutos
continuaram a passar e alguém resolveu quebrar aquele silêncio. Ela, sim, ela
resolveu perguntar:
–
Você vê o dia?
Ele
desconsertadamente perguntou:
–
Você está falando comigo?
–
Sim, estou perguntando a pessoa que eu sei que está nesse banco comigo.
–
Infelizmente eu não posso lhe dizer, pois sou cego. Não vejo o dia e nem a
noite.
–
Eu também sou cega. Lhe perguntei pensando que você não era cego, pois é um
costume que tenho. Em todos os locais que ando sempre pergunto a alguém como
está o dia para que esse alguém possa me dizer e eu possa imaginar o que é
real.
–
E isso é bom?
–
É sim! Me faz sentir presente no mundo. Não me sinto tão deslocada.
–
Gostei disso. Acho que vou começar a fazer.
–
Que tal irmos procurar alguém aqui na praça que possa nos dizer?
– Gostei da ideia.
Os
dois levantaram. Cada um com sua bengala. Dirigiram-se em busca de alguém. Até
que... pararam uma senhora e perguntaram uníssonos:
–
Você vê o dia?
A
senhora respondeu:
–
Sim!
Eles
completaram:
–
Nos diga como ele está.
Calmamente
a senhora descreveu como estava o cenário que os rodeava. Terminada a descrição
eles agradeceram à senhora e saíram. Cecílio sorria. Cristina perguntou:
–
E aí? Gostou da experiência?
–
Foi muito boa. Consegui imaginar como está o dia.
Cristina
bateu a bengala em uma pedra e perguntou:
–
Posso lhe contar um segredo?
Cecílio
respondeu:
–
Pode.
Ela
prosseguiu:
– Eu pergunto as pessoas, imagino e guardo todos os dias bons como o de hoje em meu cérebro para que quando alguém me disser que o dia está ruim eu imaginá-los.
– Eu pergunto as pessoas, imagino e guardo todos os dias bons como o de hoje em meu cérebro para que quando alguém me disser que o dia está ruim eu imaginá-los.
Ele
a questionou:
–
Mas isso não é um grande segredo.
Ela
acrescentou:
–
É o segredo de minha felicidade.
–
Então, já que funciona, a partir de hoje farei isso também. Olha, já estou
contando meu mais novo segredo para você.
Cristina
gargalhou e disse que tinha de ir. Ela já havia se afastado quando Cecílio
gritou:
– Ei, qual é seu nome?
–
Cristina! E o seu?
–
Cecílio!
Cecílio
não ouviu mais nada além disso. Cristina se perdeu na escuridão e ele voltou
para casa levando consigo o desejo de conhecê-la melhor. Ela havia despertado
nele algo novo, melhor que a liberdade. Era como se ele enxergasse com o
coração. Era uma sensação nova que ele não sabia o nome por nunca tê-la
sentido.
No
dia seguinte ele colocou seu perfume em demasia e esperançoso dirigiu-se à
pracinha. Sentou no mesmo banco e quando uma criança passou perto dele ele
disse:
–
Ei, você vê o dia?
A
criança um pouco assustada falou:
–
Vejo.
O
ceguinho continuou:
–
Pois me diga como está.
A
criança panoramicamente observou o ambiente e disparou:
–
O sol hoje não está tão vivo. As nuvens estão esbranquiçadas. A grama está
verdinha. As rosas... não têm tantas rosas. As flores estão alegres, mas
poucas. A pracinha está um pouco menos movimentada.
Ao
terminar a descrição a criança disse que precisava ir brincar e saiu correndo.
Cecílio
agradeceu, mas a criança não estava mais ali para ouvir seu “Obrigado!”.
O
ceguinho permaneceu sentado naquele banco esperando que alguém – Cristina – o
fizesse companhia. Porém, esperou em vão, pois as horas passaram e ninguém
apareceu. Saiu desapontado para casa.
No
dia seguinte fez o mesmo ritual do dia anterior e foi à pracinha. Chegando,
sentou no banquinho, mas com um semblante triste, pois já não estava tão
esperançoso com a ideia de Cristina aparecer.
De
repente, alguém sentou no banco. Seu sangue ferveu. Ele pedia confiante aos
céus que ventasse para saber se era uma mulher. Mas nem foi preciso dar
trabalho aos céus, pois uma voz idosa e cansada falou:
–
Bom dia, filho. Vou sentar um pouquinho aqui para descansar, essas minhas
compras estão muito pesadas.
Pigarreando
ele não deu muita atenção à senhora. Estava frustrado.
A
senhora saiu.
Demorou,
mas quando ele menos esperava outra pessoa sentou no banco e fez a pergunta que
mudou seu dia:
–
Você vê o dia?
Cecílio
profundamente feliz e desconsertado respondeu:
–
Não vejo, eu sou Cecílio.
–
Cecílio é você mesmo? Que bom! Sentamos juntos novamente.
–
Que bom!
Cristina
balançou a bengala e docemente perguntou:
–
Posso lhe fazer um pedido?
–
Pode sim!
–
Posso tocar em você para que eu saiba como você é?
Um
virou-se para o outro e Cristina começou. Suas mãos delicadas pousaram no rosto
de Cecílio. Ela tocou seus olhos, sua sobrancelha, desceu seu nariz e parou por
alguns segundos deslizando os dedos por seus lábios até que contornou sua face.
Foi descendo as mãos e percorreu os braços dele. Parou. Cecílio, que nunca
havia sido tocado daquela maneira, estava em êxtase. Seu sangue circulava
rapidamente e o corava. Seu coração palpitava e algo que ele nunca havia
sentido antes tomava conta de seu ser: o prazer. Essa nova sensação fazia-o
homem. Ele havia descoberto o mundo. Ele agora experimentara a verdadeira
liberdade. Agora sim sabia o que era isso. Ela o havia beijado com os dedos. Tudo
havia se modificado. O toque. As sensações. O toque. O sangue corria. O toque.
Seu corpo pegava fogo na escuridão. O toque. Seu corpo experimentava o prazer.
O toque. Descobrira a vida. O toque. Tornou-se um homem liberto.
Ele ficou paralisado
por alguns instantes para poder guardar aquele toque e o reconhecer em qualquer
parte do mundo. Guardou-o. Cristina fazia o mesmo.
–
Pronto! Já guardei suas feições! Disse Cristina.
Ele
ainda não falava.
Passou
alguns segundos e ela falou que tinha de ir embora porque já estava ficando
tarde. Despediu-se de Cecílio tocando seu ombro e sumiu na escuridão.
Cecílio
também resolveu ir para casa. Não tinha mais nada para fazer naquela praça.
Caminhou feliz e já se preparava para amanhã.
O
dia amanheceu. Ele se vestiu, se perfumou e foi à pracinha objetivando mais que
nunca encontrá-la. Queria a conhecer melhor, embora já conhecesse seu melhor
lado: seu toque.
Sentou-se
no banco e ficou esperando. Esperou até ficar somente ele na pracinha. Ela não
apareceu. Caminhou decepcionado para casa, mas com a esperança de amanhã ela
aparecer.
A
manhã chegou, ele fez todo seu ritual e novamente Cristina não apareceu. Ficou
mais triste ainda, mas sempre alimentando a esperança de vê-la no dia seguinte.
Vários dias seguintes se passaram e só o que aparecia era o toque dela em sua
mente. A esperança de vê-la diminuía progressivamente. Ele sofria. Em tão pouco
tempo, com poucos e pequenos encontros, Cristina havia se tornado a paixão de
sua vida. Ela o fazia se sentir vivo no mundo escuro. Ela era como ele. Ele
queria a conhecer melhor. Queria evoluir aquele toque. Queria beijá-la. Queria
amá-la.
Anos
se passaram, ele não frequentava mais a praça por conta de Cristina e vivia escuro
por dentro. Nada mais o fazia sorrir. Nunca mais perguntara a alguém se via o
dia. A solidão corroía seu âmago. A tristeza o cegava sentimentalmente enquanto
a cegueira o cegava corporalmente. Tudo era escuro. Não tinha mais vida. Viver
já não tinha mais graça. Não passava de um ser escurecido pelo destino. Mas um
dia algo aconteceu e deu um basta nisso tudo.
Era
quase finzinho de tarde. Cecílio tinha ido à farmácia comprar um comprimido. A
rua estava movimentada. A barulheira era grande. As pessoas esbarravam-se. As
sacolas de compras batiam em Cecílio. O espaço era pequeno para tanta gente.
Buzinas. Buzinas. Reclamações. Brigas. O trânsito estava um inferno.
Cecílio andava
devagar e estava um pouco desorientado com tanta movimentação. Sua bengalinha
ia a sua frente abrindo caminho. Ele seguia rumo à farmácia quando... quando
algo o paralisou. O fez perder a cabeça. Mudou seus sentidos, sua direção. Um
toque. De repente, alguém havia tocado seu ombro. Era o mesmo toque. Ele o
conhecia. Ele rodou, mas não havia ninguém. Chamou instintivamente por
Cristina, mas ninguém respondeu. Saiu desesperado para qualquer direção. Não
sabia mais para onde caminhava. Um baque. Carros buzinavam. Gente corria.
Gritos. Olhares espantados e curiosos. Alguém sangrava no chão. O cheiro de
vida se esvaindo era forte. O desespero tomava conta dos espectadores. Cecílio.
O toque. Ele havia sido atropelado quando saiu desorientado andando na faixa de
pedestre como semáforo verde. O sangue jorrava de sua boca. O
toque. Sua bengala encontrava-se quebrada ao seu lado. Seu corpo endurecia
vagarosamente. O toque. A vida deixava aquele corpo escuro. Cecílio morria. A
vida ia-se por conta de um toque. Morria perturbado com a possibilidade de
vê-la novamente. Vomitou o resto de sangue que ainda tinha em seu corpo e não
enxergou mais nada como sempre fez em toda a sua vida.quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Bang!
Charlote não aguentava mais aquela vida. Estava
farta daqueles vestidos curtos, daqueles espartilhos que comprimiam seu tórax,
os quais ela era obrigada a utilizar para formar uma falsa silhueta, visto que
com a idade as coisas mudaram, principalmente em seu corpo. Detestava calçar
aquelas meias longas que demoravam muito para se ajustarem as suas pernas
flácidas. Há anos ela vivia nessa vida miserável.
Sua casa, ao mesmo tempo seu local
de trabalho, ficava situada às margens de uma estrada poeirenta relativamente
movimentada. Era uma casa pequena, tristemente colorida de um tom alaranjado
devido à poeira da estrada. Sua frente era composta por uma porta de madeira
bastante desgastada que resistia bem a ação do tempo e por uma pequena janela.
Charlote era uma prostituta famosa e por isso, sua casa não tinha uma placa
informando que aquilo se tratava de uma casa de promiscuidade.
Em toda a sua vida ela passou por
dificuldades. Nasceu em uma fazenda miserável. Seus pais faziam tudo o que o
patrão mandava e recebiam uma miséria. Ela e suas três irmãs passavam fome, mas
diferente das irmãs, Charlote queria um destino melhor, passava horas a pensar
nisso. Não queria ter um destino igual ao de sua mãe, D. Glória, uma pobre
camponesa submissa ao marido alcoólatra que era violento e a espancava na
frente das filhas.
Desde pequena mostrara-se uma linda
moça. Cresceu e tudo que apresentava alguma pequena imperfeição foi melhorado
tornando-a a mais bela mulher daquela região. Tinha os cabelos ruivos quase
escarlates capazes de descontrolar qualquer homem. Sua pela além de aveludada
era branca como uma vela. Seus olhos azuis-esverdeados tinham, assim como os da
Medusa, o poder de petrificar os espécimes masculinos. Seu rosto tinha traços
angelicais que escondiam sua verdadeira personalidade. Seu corpo parecia ter
sido cuidadosamente modelado. Era todo proporcional e tentador.
Com tanta beleza foi impossível não
ser cortejada. Muitos rapazes brigavam por ela, contudo apenas um ganhou o
coração da moça: Billy, o filho mais novo de outro camponês ali da fazenda.
Conheceram-se quando ela lavava roupas. Ela
encontrava-se toda ensopada, o que marcava bastante suas formas e que levou
Billy à loucura. Sem pestanejar ele foi ao encontro da moça saber seu nome.
Mas, tímida que era, afastou-se repentinamente.
– Qual a sua graça?
Recompôs-se e observou a beleza do jovem. Pegou a
toalha que iria ensaboar, secou parcialmente as mãos e respondeu apertando as
mãos de Billy:
– Charlote, moço.
Depois desse dia, Billy sempre aparecia com novos
galanteios até que conquistou de vez o coração de Charlote. Ela passava o dia
ajudando a sua mãe e rezando para que a noite chegasse, pois esta trazia
consigo Billy, que sempre a levava para contar as estrelas com ele. Entre uma estrela
e outra eles aproveitavam para se beijar e acabavam esquecendo onde tinham
parado e tinham de recomeçar tudo novamente.
Com o passar do tempo seu amor por ele só amentou, mas
ela não podia desistir de seu grande sonho, que era o de sair dali e mudar de
vida. Billy tinha uma vida horrível assim como a dela e não dava sinais de que
queria sair daquele lugar. Portanto, casar-se agora e ser submissa a um homem não
eram seus objetivos de vida.
Decidiu então, com o coração partido e o rosto
molhado por salgadas lágrimas, em um seco dia de Agosto, sair dali. Preparou a
mala com o pouco que tinha – quatro vestidos, um par de sapatos e uma blusa – e
esperou que o negro da noite invadisse a propriedade para que ela pudesse sair
sem ser observada. A noite chegou e ela sorrateiramente saiu. Dirigiu-se até a
estrada na esperança de encontrar uma carona que a levasse até a cidade. Ficou
ali horas até aparecer uma caminhonete azul. O motorista, um sujeito bigodudo
de chapéu marrom, perguntou com toda ousadia:
– Quer uma carona, belezinha?
Ela meio sem jeito balançou a cabeça
afirmativamente.
– Está esperando o quê? Entre logo!
Ela rapidamente abriu a porta da caminhonete,
sentou, colocou sobre as pernas sua mala rasgada e fechou a porta de supetão.
O homem seguiu viagem e enquanto observava aquela
paisagem seca e repleta de cactos ele aproveitou para saber um pouco da vida de
Charlote e o que ela iria fazer na cidade. Ficou admirado com sua vida
miserável e propôs ajudá-la:
– Uma moça bonita como você terá futuro garantido na
cidade. Eu vou lhe apresentar a um amigo meu e ele lhe ajudará.
Depois de quase duas horas sentada naquele banco
duro sentindo o cheiro do cigarro forte do velho ela desceu em um bar. O local
onde se encontrava o tal amigo do bigodudo.
– Gil, você está aí?
– Sim. Já vou aí fora.
Gil apareceu. Era um homem forte, viril e muito
alto. Não tinha uma cara simpática e olhou Charlote dos pés à cabeça.
– O que achou do material? Perguntou o velho.
– Excelente! Respondeu Gil.
– Belezinha, você já está entregue e Gil saberá o
que fazer com você. Garanto que aqui você não passará fome.
Gil olhou-a novamente e a mandou entrar. Daquele dia
em diante sua vida mudou. Gil fez de Charlote a prostituta mais desejada
daquela região. Ela teve uma vida regrada a álcool, homens e dinheiro.
Esqueceu-se de sua vida miserável, mas não se esqueceu de Billy, seu amor. Agora,
ela já tinha dinheiro suficiente para que os dois se casassem e vivessem
confortavelmente.
Todavia, para a decepção de Charlote, o tempo passou
e Billy não a procurou. Ela envelheceu e foi enxotada do empreendimento de Gil,
pois os clientes procuravam as novidades. Decidiu então ir viver em uma casa
isolada e continuar vivendo da prostituição. Guardou todo o dinheiro que
conseguiu e continuou adquirindo mais, agora em sua velha casa.
Billy também envelheceu, deixou o bigode crescer e
tornou-se um dos bandidos mais procurados do velho oeste. Nunca se casou por causa
da decepção que teve com Charlote e vive dos roubos bem planejados e atrevidos.
Tornou-se um forasteiro impiedoso e cruel. Matar para ele é como beber água.
Um dia, sentado em seu alpendre segurando seu chapéu
de couro e afrouxando o lenço que sufocava seu pescoço, ele recebeu a visita de
seu irmão mais velho que tinha ido morar na cidade no mesmo tempo em que
Charlote sumiu. Ele chegou e contou muitas novidades, inclusive o que tinha
acontecido ao grande amor de seu irmão. Billy ficou chocado e maquiavelicamente
preparou um plano em sua cabeça. Dois dias depois disso se mandou para a
cidade. Demorou um pouco, mas ele conseguiu chegar. Graças a diversas
informações conseguiu encontrar a casa de Charlote.
Desceu de seu carro, firmou fortemente um revólver
Colt 45 em cada mão, dirigiu-se até a porta e deu um chute tão forte que fez
Charlote tremer. Ela, mais que depressa, abriu a porta e ficou chocada com o
que viu. Conturbada, deu três passos para trás e reconheceu aquele sujeito.
Piscou os olhos e o recepcionou com um belo sorriso. Sem se comover, Billy
levantou uma das mãos, puxou o gatilho e a acertou com um tiro no coração. Ali
mesmo ela caiu e endureceu com um sorriso no rosto. Billy assoprou a ponta do
revólver para que o ferro esfriasse, guardou-o em um de seus bolsos, girou o
outro em seu dedo indicador e também o guardou. Olhou para o corpo da
prostituta, sorriu e saiu tranquilamente em seu carro rumo ao próximo assalto.
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
Uma história de amor
Vestiu-se ansioso. Tomou café. Chegou à
escola. O sino tocou. Estava oficialmente aberto o ano letivo. Jorge
rapidamente se dirigiu a sala de aula tomada por estranhos. Ninguém,
absolutamente ninguém, era seu conhecido.
A
professora entrou. Logo, começaram as formalidades. Apresentações, falas,
risos, timidez... Cada um era respeitado em sua singularidade. Passam-se
apresentações e mais apresentações, até que chega a vez de Jorge. Com os lábios
ressecados pelo nervosismo e com as pernas bambas de timidez, profere simples e
rápidas palavras.
Do outro lado da sala, bem longe de
nosso herói, está Maria. Linda, meiga, comunicativa e popular. Quando se
apresentou, não transpareceu, nem por um minuto, seu nervosismo – se é que ela
tinha. Sinceramente, acho que essa palavra nunca esteve presente na vida dessa
menina.
As aulas daquele dia foram terminando e
nosso herói ainda não tinha se enturmado com muita gente. Todavia, alguém
naquela desgastada e velha sala tinha lhe chamado atenção.
Pronto para mais um dia de aula e disposto
a ir conversar com Maria, ele entra na escola. Mas, sua timidez o faz mudar
rapidamente de ideia. Entra na sala. Ela estava rodeada de amigas conversando
enquanto o professor não chegava.
De sua cadeira o menino observava
discretamente sua colega. O jeito como ela mexia no cabelo o fascinava. O seu
sorriso fazia-o voar. Até o simples piscar de olhos da menina lhe deixava
feliz.
Os dias foram passando e o garoto
descobriu que estava apaixonado por Maria. E, finalmente, resolveu procurá-la.
Já tinha um plano em mente: iria começar sendo amigo dela, para depois
conquistá-la. E assim fez. Encorajou-se. Esqueceu a timidez. Arrumou o cabelo.
Deu aquela arrumadinha básica no colarinho e foi.
Quando chegou perto dela até o seu âmago
tremia, mas não deixou que isso transparecesse. Começou falando sobre uma
tarefa e depois já estavam criando um vínculo. Amigos? Para a garota sim.
A cada intervalo que se passava a
amizade aumentava. E assim continuaram.
Mas, Jorge – manipulado pela timidez e
pelo medo – não tinha coragem de dar continuidade ao plano. Sofria sozinho. O
amor e amizade coexistiam dentro daquele pequeno e frágil ser.
Ele, por medo, esqueceu o plano.
Ela, linda e sedutora, continuou a ficar
mais íntima do jovem.
O tempo foi passando, as séries
aumentando, a amizade se solidificando e nada mais acontecia.
Hoje, a menina virou confidente do
menino que nunca contou que a ama. E, o menino ainda guarda em seu doce e
frágil coração o amor que espera um dia oferecer a jovem.
Tomara que em um dia qualquer, a coragem
que o possuiu no dia em que falou pela primeira vez com a garota volte, e ele
possa dar continuidade ao plano já esquecido em sua mente, mas vivo em seu
coração.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Insegurança
Será que escrevo? Eu ao menos sei escrever? O que
escrevo presta? O que vão achar? Será que está bom? Falarão muito?
julgar-me-ão? Quer saber, dane-se o mundo! Vou escrever sim!
Acho que pelo título e por essa introdução você deve
estar se familiarizando com o tema da crônica de hoje. Pois bem, trataremos da
insegurança. Não da insegurança pública que está espalhada pelo Brasil e
ninguém faz nada, mas da insegurança pessoal. Se sou inseguro? Não muito, dei
uma enfeitada para prender sua atenção no começo. Mas, claro, tenho sim meus
momentos de insegurança, diga-se de passagem duradouros e devastadores.
Mas por que deixamos de experimentar as melhores
coisas e de viver as mais puras emoções por conta da insegurança? Somos
submissos a ela por acaso? Cuidado, muito cuidado! Começa de pouco e depois
toma conta de sua vida.
Por que ela/ele preferiu ele/ela? Simplesmente
porque, talvez, nem tentamos conquistá-la (lo). Porque fomos inseguros ao ponto
de nos trancarmos em nosso mundo quadrado e solitário e esperarmos ela/ele vir
falar conosco. Por que ele/ela faz isso e aquilo e eu não? Porque eu nunca
tentei fazer, ora. Se ele/ela consegue, eu consigo. Pausa. Isso aqui está
parecendo crônica motivacional, se é que existe esse tipo de crônica, mas deve
ter, afinal, ainda não se sabe nem ao certo o que é uma crônica. Por falar
nisso, olha aí uma coisa na qual minha insegurança trabalha. Escrevo, escrevo,
tenho segurança para escrever, mas tenho insegurança para definir o resultado
final. É uma crônica ou um conto? Lá dentro, algo me diz que é uma crônica.
Aqui fora, algo me diz tratar-se de um conto. E agora? E nem adianta vir com o
papinho de que a crônica é um texto pequeno que aborda o cotidiano, o trivial
de maneira fascinante. Tem é muito conto que faz isso, ora. E tem é muita
crônica que não faz isso, se não houver, perdoe-me, mas acho que tem. Mas vamos
parar com isso porque não estamos aqui para uma aula de Língua Portuguesa e nem
em uma discussão linguística, estamos aqui para tratar da insegurança.
Por falar nisso, pegue um papel e uma caneta e
responda a seguinte pergunta:, (“Espera aí, eu não peguei o papel e nem a
caneta.”). Vou esperar então. Já pegou? Ainda não? Está esperando o quê? Pegou?
E nem pense que não é para pegar. Se você não pegar logo o que estou mandando,
pare de ler, ora. Pegou? Então pronto! Responda aí: Quantas coisas você já fez
realmente seguro(a)? Verdadeiramente espero que você tenha anotado muita coisa.
Agora, responda essa outra: Quantas coisas você fez inseguro(a) ou nem chegou a
fazer?
Respondeu? Pois vamos aqui comigo. Qual foi sua
maior lista? (Não vou dizer a minha porque não fiz, ou você quer que eu escreva
a crônica e ainda responda as perguntas que eu mesmo perguntei – criei,
inventei, tanto faz – ?) Voltando... Se a maior foi a das coisas realizadas com
segurança, parabéns! Você é uma pessoa bem segura, ou finge ser e mente muito
bem. Se a maior foi a da insegurança, parabéns também! Você mostrou ser uma pessoa
verdadeira e SEGURA.( “Como assim? SEGURA?”) Você respondeu com segurança não
respondeu? Então, você é uma pessoa segura. Simples assim! Você precisa
acreditar nisso!
“Que loucura é essa?”, deve ser o que você está
pensando no momento, mas não se apoquente, não. Não tem nenhuma loucura aqui.
Você só tem de parar de pensar que a insegurança existe. Ela é fruto de nossa
imaginação. A partir de hoje ela morreu – ah, isso serve para mim. Mais tarde
anoto em minha agenda: “A Insegurança morreu hoje.” Acrescentarei ainda: “Eu
não vou visitá-la e muito menos levar flores para o seu túmulo no dia de
finados.” A partir de hoje você vai fazer as coisas com segurança. Não vai se
importar com opiniões alheias e nem vai fazer nada só para agradar alguém. Ao
contrário do que dizem por aí, você não precisa de alguém que te dê segurança. Você
precisa é de você, de se conhecer. A partir de hoje você vai acreditar em seu
potencial. Enfim, a partir de hoje você vai ser seguramente você. É tão bom ser
seguramente você. Experimente! Então pronto! Deu por hoje! Acho que já falei o
que tinha para falar.
Ah, deixa eu ir buscar a agenda enquanto estou me lembrando.
Ah, deixa eu ir buscar a agenda enquanto estou me lembrando.
quarta-feira, 20 de julho de 2016
A dor de um adeus
Era tão bom quando aquela mão afagava-me calmamente.
Era tão bom quando aquele olhar brilhava quando encontrava o meu. Era tão bom
quando aqueles lábios sorriam involuntariamente só porque eu estava visível.
Era tão bom quando eu estava ao seu lado. Tudo era tão bom! Todavia, tivemos de
romper e eu, que julgava saber a dor de uma separação, fui pego de surpresa.
Vejo que o que pensava não é nem um quarto do que verdadeiramente estou passando.
Conheci da pior maneira possível a dor de um adeus.
Olhar para a tela de meu celular e
não ver chegar uma mensagem sua, olhar para os presentes e ainda sentir o seu
perfume, olhar para o canto da sala onde você ficava, olhar para os
bilhetinhos, que mesmo desajeitados com sua letra pouco decifrável, dá para
perceber nitidamente que o conteúdo trata-se do seu amor por mim... Tudo isso
só me traz mais tristeza.
Fico a todo o momento tentando
esquecer tudo para vê se consigo amenizar um pouco dessa tristeza que me
corrói. Tento ouvir músicas, mas quando eu menos espero chega a uma que me faz
lembrar você, aí fica impossível controlar meus pensamentos – não sei como
explicar, mas de uma maneira fantástica, cada momento nosso foi sonorizado por
uma melodia. Arrepio-me só de pensar que poderíamos estar reciprocamente
trocando carinhos. Choro. Tento lavar minha alma com minhas lágrimas salgadas.
Está sendo tudo tão difícil. Nunca
pensei que dois corações que já sorriram e choraram juntos um dia fossem se
separar. Nunca pensei que juras de amor eterno fossem carregadas pelo vento.
Nunca pensei que promessas e planos fossem quebrados pela desconfiança. Nunca
pensei no mundo sem nós dois. Você era meu porto e era a pessoa que me passava
segurança. Construímos laços que eu jurava serem inquebráveis. Erámos além de
dois apaixonados, dois amigos.
Vivemos muitas coisas juntos. Nossas
mãos ficaram fortemente unidas por tanto tempo. Nossos lábios se tocaram
incontáveis vezes. Dividimos e brigamos pela última colherada de brigadeiro. Nossos
sorrisos se multiplicavam, o tempo passava e tudo ainda tinha o mesmo sabor da
primeira vez. Mas, tudo, tempestuosamente foi mudado. Agora eu estou aqui
sofrendo por que tive de te dar adeus. Tive de dar adeus a toda a nossa história.
Tive de dar adeus aos nossos momentos, mas ainda não consegui dar adeus a essa
dor que me possui. Espero que da mesma forma que a vida impiedosamente nos
separou, eu consiga mudar essa dor e estampar em meu rosto um sorriso
verdadeiro.
Parece simples dizer adeus. Parece
simples se desvincular de alguém. Parece simples terminar e recomeçar. Contudo,
se esse recomeço vai ser sem esse alguém que era motivo de meus sorrisos, o
coração chora, a alma grita, o olhar perde o brilho e no rosto figura uma expressão
de tristeza.
A senha do wi-fi
O ônibus estava previsto para chegar às
06h00min, mas sabíamos que atrasaria. Ele sempre atrasa! Um passageiro demora
muito para comer, outro guloso come demasiado muito e perde a noção do tempo no
banheiro tentando deixar parte do estoque por lá, um jovem viciado em redes
sociais não quer mais sair do wi-fi, a menina paparazzo não para de fotografar
tudo e todos... Tudo isso contribui para que o ônibus atrase e a gente fique
por um longo e entediante tempo na rodoviária.
Nada do ônibus chegar! O jeito foi
ficarmos ali sentados esperando ele chegar. Nada para fazer. Um olhava para a
cara do outro. O único entretenimento que apareceu foi um pastor. Conversou
sobre como anda a família atualmente, sobre pregações e outros assuntos de
pastor.
Estava ali embrulhado pelo tédio e
movido pela preguiça, quando tive uma ideia. Já que eu estava com meu
companheiro inseparável – que parece até uma parte de mim – resolvi utilizá-lo.
Muito animado e esperançoso, liguei o
wi-fi. Ativando... Pesquisando... Obtendo endereço IP... E nada! Nenhuma rede
aberta! Nesse momento a tristeza bateu. Parecia que um ente querido tinha me
abandonado. Foi nesse momento que percebi o quanto somos dominados pela
tecnologia. O quanto somos viciados e dependentes. Não chega a ser uma droga,
mas para alguns funciona como uma – não é o meu caso, tá leitor?!
Continuando... Observei que tinha me
deparado só com redes privadas. Disse para mim mesmo: é o jeito tentar a sorte.
E comecei a imaginar as possíveis senhas.
Comecei com a boa e velha “1234”. Não
deu certo! Parti para a próxima: o nome do estabelecimento mais 123. Também não
funcionou! Primeira letra do nome do dono mais 123. Senha incorreta. O nome do
dono. Mais uma tentativa frustrada! Fui tentando, tentando, tentando... e para
a minha surpresa, tinha errado a senha novamente!
Continuei com essa luta. Imaginava e
digitava, imaginava e digitava... Meus dedos, como de costume, roboticamente
digitava tudo o que a minha maravilhosa mente pensava.
Dei seguimento a isso até ser
interrompido pela minha madrinha:
– Dalvan, você não vai para casa hoje?
Seu tio já chegou há cinco minutos. O ônibus até já saiu.
Fiquei muito surpreso. Como tudo isso aconteceu na minha cara e eu não percebi? A única resposta cabível é que a tecnologia nos cega e as senhas do wi-fi nos distraem.
Fiquei muito surpreso. Como tudo isso aconteceu na minha cara e eu não percebi? A única resposta cabível é que a tecnologia nos cega e as senhas do wi-fi nos distraem.





