quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Um feliz aniversário


Estava sentado naquela dura cadeira da recepção do hospital em um domingo angustiante aguardando notícias de meu amiguinho Gabriel, que se encontrava na U. T. I. De repente, uma ambulância chegou. Aquilo roubou temporariamente meu olhar e minha atenção. Dela saiu em uma maca uma linda menininha da mesma faixa etária que Gabriel. Loirinha e pálida deveria ter vindo de uma festa de aniversário direto para o hospital – um chapéu colorido em formato de cone e um vermelho nariz de palhaço pendurados em sua mão justificam minha hipótese. Atrás dos enfermeiros corria uma mulher desmanchando-se em lágrimas que não pôde ir para o centro cirúrgico e teve de ficar na recepção. Sentou-se ao meu lado e pôs-se a chorar. Olhei-a timidamente e ofereci um copo d’água. Ela aceitou e quando deu o último gole resolvi interagir:
– O que aconteceu? Aquela é sua filha?
– Sim, aquela é minha única filha. Era o aniversário dela... minha Isabela completava seus doze anos até que... até que... – respirou fundo e novamente seu rosto cobria-se de lágrimas – ela passou mal, muito mal.
– E ela já tem algum problema?
– Sim, ela tem insuficiência cardíaca. Ela já teve algumas crises, mas a de hoje nem se compara as outras. A de hoje foi muito forte mesmo! Os médicos já haviam me dito que a solução para o problema dela seria o transplante de um novo coração, mas é muito difícil. Ela é a primeira da fila para o caso de aparecer um transplante, mas eu não conto muito com isso. É muito difícil encontrar alguém que seja um doador no Brasil, um país repleto de seres humanos egoístas, mentirosos e hipócritas.
Concordei com sua fala e continuamos, pois, sentados ali. Rezando e sem receber nenhuma informação. Cabisbaixos, tentando alimentar os melhores pensamentos, mas assumo que estava difícil. Os ponteiros do relógio giravam e com eles meu estômago girava junto. Unhas? Eu não tinha mais.
Minha aflição diminuiu quando vi o médico caminhar em minha direção. A mãe de Gabriel, D. Zélia, que estava algumas cadeiras distantes de mim e mais aflita e desesperada, veio correndo. O médico chegou. Sua cara não era animadora.
– Vocês estão acompanhando o Gabriel?
– Sim! – respondemos uníssonos.
– Nós fizemos vários procedimentos, tentamos de tudo para reanimá-lo, mas infelizmente Gabriel teve morte cerebral.
O médico nem concluiu sua fala e D. Zélia caiu de joelhos gritando aos prantos. Pedia para que trouxessem seu filho de volta. Eu? Meu rosto se desmanchava em lágrimas e eu nem havia me dado conta. Tentava limpar e ser forte, mas a dor era grande demais. As lágrimas descontroladamente rolavam, mas tive de me conter para ouvir o que o médico ainda ia falar. Ele chamou a mãe de Isabela para junto de nós e disse:
– Seu filho se foi, D. Zélia, mas não fique triste, pois ele evitou que tivéssemos duas crianças mortas em uma única noite. Graças ao seu ato de tornar todos os membros de sua família doadores de órgãos, Gabriel salvou a vida de Isabela doando seu coraçãozinho para ela – nesse momento o médico apoiou a mão no ombro da mãe de Isabela e soltou um sorriso comportado.
D. Zélia recompôs-se e foi fortemente abraçada pela mulher que teve a filha salva por Gabriel. Limpando suas lágrimas ela disse:
– Eu posso apenas imaginar a dor que você deve estar sentindo, mas quero que saiba que eu e minha filha seremos eternamente gratas a você e ao seu filho. Ele, um desconhecido, que nem convidado para o aniversário dela fora, deu o melhor presente de todos: a vida.
D. Zélia confirmou com a cabeça e veio me abraçar. Nesse momento, já controlado e conformado, sussurrei ao seu ouvido: “não fique triste. Ele pode ter falecido, mas seu coração ainda pulsa, e com certeza, pulsará muito mais. Pulsará sonhos, alegrias, conquistas, enfim, uma nova vida.”
Ela concordou comigo, limpou as lágrimas e juntos sentamos, bebemos água e ficamos esperando para vermos como estava Isabela. Particularmente, estava doido para ver aquela face pura sorrir cheia de vida e trazer um pouco de alegria para a segunda-feira que se aproximava.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A cura


Marta é uma mulher ímpar. Magra, alta, rancorosa, briguenta, adora uma confusão e um bom cigarro, principalmente após a janta. Passa a vida dedicando-se ao lar e ao marido. É uma excelente artesã. Crochê, tricô, costura. Sua principal característica é com certeza sua personalidade um tanto agressiva linguisticamente falando. Vive a falar palavrões e a dizer tudo o que pensa olho no olho.
Mora em um sobrado. Velho, grande, desgastado, rachado, sujo e desarrumado. A casa vive de reformas. Recentemente trocaram o telhado. Até que ficou bonitinho. Vermelho, bem vermelho! O piso está um horror! O pouco e ralo cimento que resistiu a ação do tempo desprega do solo e cria gigantescos buracos na sala de estar. A calçada está velha e desgastada assim como Marta. Quantas pessoas já pisaram ali? Quantas crianças já correram ali? Quantos gols já foram comemorados ali? Quantas fofocas já foram reveladas ali? Quantos bêbados já dormiram ali? – quando digo bêbados refiro-me ao marido de Marta que já bebeu, caiu e dormiu na calçada inúmeras vezes.
Marta gosta muito de futebol. Todos os domingos põe a velha e branca cadeira de plástico na calçada anciã, liga a televisão no máximo, pega uma bacia de pipoca, coloca algum líquido no copo e começa a gritar loucamente assistindo ao jogo de futebol. Grita, pula, xinga, mas não quebra a televisão, pois não vai ser fácil comprar uma nova.
Ela não tem muitas amigas. Para falar a verdade, pouquíssimas pessoas frequentam a sua casa. Sua única amiga e frequentadora assídua de sua casa é Fátima, uma mulher enigmática, de olhos dissimulados, cheia de problemas. As duas adoram conversar e pedir conselhos uma a outra. Quando Marta precisa viajar para o Rio de Janeiro ela é quem fica cuidando da casa e trazendo comida para o marido da amiga. Ela traz o almoço e a janta e está sempre presente na casa auxiliando o homem no que ele precisar. Doa-se ao marido de Marta, Deusinho, um curandeiro viciado em álcool, que adora branco e ama o final de semana, pois bebe até a madrugada. Durante a semana trabalha muito, seu terreiro é muito procurado. É corpo possuído, é inveja, é chifre, é maldição, é amor, é tudo! O local de trabalho do homem fica atrás do velho sobrado. É um terreiro cercado por altas e frondosas mangueiras, grande e de barro vermelho, um vermelho sangrento. Durante a noite acontecem as rodas. Gritos, gritos, gritos... palmas, cânticos, danças... oferendas, preto, sangue... Todos de branco, tudo a luz de velas.
Deusinho e Marta têm uma vida um pouco complicada. Vivem a brigar. Quando Deusinho bebe, ela nem espera ele acordar para a confusão começar. Palavras de baixo calão “voam”, chinelos voam, vasos voam e pratos também. A confusão só termina quando Deusinho vai para seu terreiro e finge não ouvir nada do que a mulher berra.
Marta sofre muito com o marido e sempre conta tudo para sua melhor amiga. Todavia, não busca a separação por medo de ficar sozinha e ninguém a querer mais, pois ela já está velha, 49 anos. Fátima sempre a ouve e aconselha mesmo com os inúmeros problemas que tem – foi devido a isso que conheceu Marta e Deusinho. Quando ela tinha brigado com o marido e parecia estar sofrendo uma maldição resolveu procurar um curandeiro o mais rápido possível para cuidar de sua vida. Assim, conheceu Deusinho e, diga se de passagem, adorou o que viu. A partir daí sempre que ela está com um problema, seja ele físico ou espiritual, ela procura Deusinho durante a noite – além de tratar dos espíritos ele também tem rezas e garrafadas para as dores que consomem a vivacidade dos seres humanos.
Em uma dessas noites escuras, libidinosas e neblinosas, Fátima mostrou sua real face. Tudo estava escuro e sombrio. Fátima estava como de costume possuída pelo desejo de possuir Deusinho. Como já era costume trocarem carícias durante a noite e nos períodos em que a amiga estava longe, ela usaria a desculpa de sempre – a insuportável dor que tinha em seu joelho, que a atrapalhava até para andar. Chegou viva, os olhos brilhavam, o cabelo de tão penteado seguia o ritmo do vento que o lambia, a pele hidratada e perfumada esperava ansiosamente pelo toque bruto e forte da mão calejada de Deusinho, a boca estupidamente vermelha e o vestido de tão apertado moldava uma falsa silhueta no corpo velho e gordo da mulher.
– Boa noite, amiga! Meu dia foi péssimo! Essa dor no meu joelho está cada vez pior, hoje estou movimentando muito pouco minha perna esquerda.
– Coitada! Sente que vou chamar Deusinho, ele vai rezar em seu joelho.
E assim saiu Marta, correu a procura de Deusinho. Achou-o se perfumando e trocando de roupa em seu terreiro.

– Fátima está na calçada esperando por ti para rezar naquele joelho doente dela.
– Mande ela entrar e diga que estarei esperando aqui no terreiro. Ah, não deixe ninguém aparecer aqui enquanto ela não sair, pois hoje tentarei incorporar um médico e tentarei curar de uma vez por todas o joelho de Fátima.
Marta saiu e foi dar o recado à amiga. Fátima, usando de todo o seu cinismo, pediu ajuda a Marta para chegar até o terreiro argumentando que a dor estava até impossibilitando-a de andar. Marta deixou os dois a sós e saiu, mas sem perceber deixou cair seu isqueiro quando voltava.
Assim que Marta saiu os dois começaram a se curar. Vorazmente Deusinho mordia Fátima e ela retribuía. O clima esquentou e os dois se curavam de prazer.
Marta acabara de jantar e como de costume tinha de fumar um cigarro. Aquele fumo envolvido por um pedaço de papel frágil acalmava-a. Pegou o cigarro, colocou a mão no primeiro bolso e não encontrou o isqueiro. Procurou em todos os outros e nada. Andou pela casa, conferiu no quarto, olhou na cozinha, mas nada encontrou. Lembrou-se então, que quando foi deixar a amiga no terreiro estava com o objeto no bolso. Como o vício é controlador ela não se conteve e foi buscar o objeto desrespeitando a ordem do marido. “– Eu vou bem caladinha para não atrapalhar e volto rapidinho.”
E ela foi.
Quando abriu a porta viu logo seu isqueiro brilhar. Agachou e pegou-o. Quando levantou a cabeça e já ia virar às costas dirigindo-se novamente à porta seus olhos ferveram. Ela viu o que nunca quisera ver. Deusinho satisfazia Fátima de um jeito que nunca satisfez Marta. A pobre mulher sentia-se um lixo, uma humana usada e acima de tudo traída. Não sabia o que fazer. Apenas saiu rapidamente e chorou até secarem as lágrimas. Sua raiva e espontaneidade de nada lhe valeram naquele momento. Ela ficou sem voz, sem ação e ficou com mais medo ainda de perder seu único e miserável marido, aquele que por mais que não a consumisse por completo deitava sempre com ela.
Chorou, mas optou por nada fazer. Aguardou os dois saírem, despediu-se da amiga e foi dormir junta a Deusinho. Dormiu e sonhou com o dia em que Deusinho iria encontrar a cura para o joelho da amiga – provavelmente, no dia em que ele enjoar de Fátima.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Lembranças



Escute enquanto lê:


Lembra de quando corríamos juntos de porta em porta? De quando assustávamos os vizinhos mais velhos? De quando nos escondíamos em nossa casinha da árvore? De quando você me olhava com um sorrisinho no canto da boca, apertava minha bochecha e eu retribuía acariciando seu cabelo vivamente brilhoso? Éramos duas crianças ímpares. Dois “pestinhas” como muitos diziam. Duas almas que se completavam. Doce e salgado. Frio e calor. Razão e emoção. Alegria e tristeza. Choro e sorriso.
Lembra do dia que doamos nossos brinquedos – o que sobrou deles?  Como crescemos do dia para a noite!
Lembra da minha primeira carteira? De seu primeiro salto? De quando você quase caiu na calçada tentando se equilibrar nele? Da penugem que era minha primeira barba? Da primeira vez que saímos sozinhos? De nossa primeira noitada? De nosso primeiro beijo, nosso primeiro “eu te amo”, nosso namoro? De nossa primeira vez? De nossas juras? De nosso noivado? Que dia incrível! O começo da materialização de um sentimento tão puro.
Lembra do dia mais importante de nossas vidas? De como eu estava nervoso e como você estava linda? De como eu segurava as lágrimas? De como você sorria e soltava as lágrimas? De nosso sonoro sim?
Lembra de nossa casa? De como você organizou tudo do seu jeitinho? De todo o trabalho que tive? Do sofá aconchegante no qual assistimos a diversos filmes? De nossas conquistas, nosso trabalho, nossas contas, nossa vida de adulto?
Lembra daquela tarde? Da notícia? De como eu era o homem mais feliz do mundo? De como eu mimei você durante os nove meses? De como foi lindo o nascimento dela? De como passamos noites acordados?
Lembra de como envelhecemos? De como nos preocupamos com o trabalho? De como pouco nos falávamos? De como nos cansamos de tudo? De como a rotina estava um inferno?
Lembra de nossa primeira briga? De como você chorou? Eu chorei escondido. Chorei muito. De como depois da primeira outras vieram e multiplicaram-se? Como esquecer, não é?
Lembra da mala, do último olhar, da buzina? Eu estava saindo. Foi difícil, mas foi o melhor.
Lembra? Você ainda lembra? Você ainda lembra de mim? Lembra de nós?

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Sobre saudade


Coisinha, estou com saudade de você. É como se um pedaço meu estivesse em um lugar distante. Estou com saudade de seu cabelo, de seu olhar, de seu sorriso, de sua pele, de seu jeito. Até de você mandando em mim, acredita? Queria te ter por perto. Queria poder te abraçar. Queria desabafar. Queria seus olhos para eu mergulhar bem fundo. Queria vê-los refletindo minha face. Queria uma alma para me escutar. Queria te tocar, falar com gesto o quão importante você é para mim. Essa saudade maltrata. Não sei qual o remédio, se é que tem. Talvez, o único remédio seja você, seja te encontrar. No entanto, enquanto não corro para te apertar, consolo-me com as palavras. Elas ajudam! Dizem o que uma boca tímida não ousa pronunciar. Transferem para o papel os tão escondidos e pusilânimes sentimentos de meu coração.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O toque

Ele saiu do ventre de sua mãe e ao contrário das outras crianças, que choravam ao seu redor, não enxergou as cores, as formas, a vida. Gemeu baixinho, encolheu o pequenino corpo e debateu-se na escuridão até sentir-se envolto por dois braços acolhedores. D. Esmeralda o colocou para dormir e guardou para si as preocupações e convicções que só o ser mãe é capaz de ter.
Passou sua infância na fazenda do avô convivendo com coloridíssimas borboletas, alegres pássaros e verdes pastagens que ele sabia que existiam, mas que seus olhos não eram capazes de enxergar. Passava a maior parte do tempo sozinho e recluso em seu mundo escuro. As outras crianças não o incluíam em suas brincadeiras, ao não ser na “cabra-cega”, na qual ele era sempre a cabra.
 Todavia, Cecílio não se chateava por não brincar com as outras crianças. O que ele adorava mesmo era sair sozinho e entrar na mata, esbarrar nas árvores, sentir o cheiro da vida, ouvir cantos de seres desconhecidos por sua visão. O que ele gostava mesmo era de se sentir livre. Liberto dos cuidados excessivos de todos que o rodeavam. Liberdade, ele só procurava isso. Desenvolveu-se em meio a essa liberdade.
O tempo seguiu seu curso indesviável e Cecílio tornou-se adolescente. Mudou de fisionomia e de endereço. Agora, mora com a mãe no Bairro das Flores Alegres. Ainda continua recluso, ainda mais eu diria. Não tem amigos e seu único passatempo é ir à pracinha para tentar sentir a liberdade que ele sentia na fazenda. Contudo, o máximo que consegue é uma suave brisa com um leve frescor perfumado de rosas tocando sua face. Por mais que tente cheirar a liberdade, aqui ele não corre, não esbarra nas árvores, não ouve cantos de seres desconhecidos.
Mas sentindo ou não o cheiro da liberdade, toda manhã ele está na pracinha. E foi em uma dessas manhãs que ele conheceu Cristina. O sol flutuava amarelo no céu azulado. As rosas desabrochavam lentamente e as flores observavam atentas aquele espetáculo. Algumas crianças brincavam no parquinho.
Cecílio sentou-se no banco como de costume, cruzou as pernas e ficou balançando a bengala desorientadamente. Alguns pombos o sobrevoaram na esperança de ganharem migalhas do pão que ele levava a boca.  Ele continuou a morder fortemente o pão quando percebeu que não estava sozinho naquele banco. Acomodou-se como quem marca território, mas não fez mais que isso. Alguns minutos depois, o vento soprou e algo como longos cabelos bateram em seu rosto. Nesse momento ele percebeu que sua companhia de banco era uma mulher. Ficou curioso para saber como ela era, mas guardou a curiosidade para si.
Minutos continuaram a passar e alguém resolveu quebrar aquele silêncio. Ela, sim, ela resolveu perguntar:
– Você vê o dia?
Ele desconsertadamente perguntou:
            – Você está falando comigo?
– Sim, estou perguntando a pessoa que eu sei que está nesse banco comigo.
– Infelizmente eu não posso lhe dizer, pois sou cego. Não vejo o dia e nem a noite.
– Eu também sou cega. Lhe perguntei pensando que você não era cego, pois é um costume que tenho. Em todos os locais que ando sempre pergunto a alguém como está o dia para que esse alguém possa me dizer e eu possa imaginar o que é real.
– E isso é bom?
– É sim! Me faz sentir presente no mundo. Não me sinto tão deslocada.
– Gostei disso. Acho que vou começar a fazer.
– Que tal irmos procurar alguém aqui na praça que possa nos dizer?
            – Gostei da ideia.
Os dois levantaram. Cada um com sua bengala. Dirigiram-se em busca de alguém. Até que... pararam uma senhora e perguntaram uníssonos:
– Você vê o dia?
A senhora respondeu:
– Sim!
Eles completaram:
– Nos diga como ele está.
Calmamente a senhora descreveu como estava o cenário que os rodeava. Terminada a descrição eles agradeceram à senhora e saíram. Cecílio sorria. Cristina perguntou:
– E aí? Gostou da experiência?
– Foi muito boa. Consegui imaginar como está o dia.
Cristina bateu a bengala em uma pedra e perguntou:
– Posso lhe contar um segredo?
Cecílio respondeu:
– Pode.
Ela prosseguiu:
– Eu pergunto as pessoas, imagino e guardo todos os dias bons como o de hoje em meu cérebro para que quando alguém me disser que o dia está ruim eu imaginá-los.
            Ele a questionou:
– Mas isso não é um grande segredo.
Ela acrescentou:
– É o segredo de minha felicidade.
– Então, já que funciona, a partir de hoje farei isso também. Olha, já estou contando meu mais novo segredo para você.
Cristina gargalhou e disse que tinha de ir. Ela já havia se afastado quando Cecílio gritou:
            – Ei, qual é seu nome?
– Cristina! E o seu?
– Cecílio!
Cecílio não ouviu mais nada além disso. Cristina se perdeu na escuridão e ele voltou para casa levando consigo o desejo de conhecê-la melhor. Ela havia despertado nele algo novo, melhor que a liberdade. Era como se ele enxergasse com o coração. Era uma sensação nova que ele não sabia o nome por nunca tê-la sentido.
No dia seguinte ele colocou seu perfume em demasia e esperançoso dirigiu-se à pracinha. Sentou no mesmo banco e quando uma criança passou perto dele ele disse:
– Ei, você vê o dia?
A criança um pouco assustada falou:
– Vejo.
O ceguinho continuou:
– Pois me diga como está.
A criança panoramicamente observou o ambiente e disparou:
– O sol hoje não está tão vivo. As nuvens estão esbranquiçadas. A grama está verdinha. As rosas... não têm tantas rosas. As flores estão alegres, mas poucas. A pracinha está um pouco menos movimentada.
Ao terminar a descrição a criança disse que precisava ir brincar e saiu correndo.
Cecílio agradeceu, mas a criança não estava mais ali para ouvir seu “Obrigado!”.
O ceguinho permaneceu sentado naquele banco esperando que alguém – Cristina – o fizesse companhia. Porém, esperou em vão, pois as horas passaram e ninguém apareceu. Saiu desapontado para casa.
No dia seguinte fez o mesmo ritual do dia anterior e foi à pracinha. Chegando, sentou no banquinho, mas com um semblante triste, pois já não estava tão esperançoso com a ideia de Cristina aparecer.
De repente, alguém sentou no banco. Seu sangue ferveu. Ele pedia confiante aos céus que ventasse para saber se era uma mulher. Mas nem foi preciso dar trabalho aos céus, pois uma voz idosa e cansada falou:
– Bom dia, filho. Vou sentar um pouquinho aqui para descansar, essas minhas compras estão muito pesadas.
Pigarreando ele não deu muita atenção à senhora. Estava frustrado.
A senhora saiu.
Demorou, mas quando ele menos esperava outra pessoa sentou no banco e fez a pergunta que mudou seu dia:
– Você vê o dia?
Cecílio profundamente feliz e desconsertado respondeu:
– Não vejo, eu sou Cecílio.
– Cecílio é você mesmo? Que bom! Sentamos juntos novamente.
– Que bom!
Cristina balançou a bengala e docemente perguntou:
– Posso lhe fazer um pedido?
– Pode sim!
– Posso tocar em você para que eu saiba como você é?
Um virou-se para o outro e Cristina começou. Suas mãos delicadas pousaram no rosto de Cecílio. Ela tocou seus olhos, sua sobrancelha, desceu seu nariz e parou por alguns segundos deslizando os dedos por seus lábios até que contornou sua face. Foi descendo as mãos e percorreu os braços dele. Parou. Cecílio, que nunca havia sido tocado daquela maneira, estava em êxtase. Seu sangue circulava rapidamente e o corava. Seu coração palpitava e algo que ele nunca havia sentido antes tomava conta de seu ser: o prazer. Essa nova sensação fazia-o homem. Ele havia descoberto o mundo. Ele agora experimentara a verdadeira liberdade. Agora sim sabia o que era isso. Ela o havia beijado com os dedos. Tudo havia se modificado. O toque. As sensações. O toque. O sangue corria. O toque. Seu corpo pegava fogo na escuridão. O toque. Seu corpo experimentava o prazer. O toque. Descobrira a vida. O toque. Tornou-se um homem liberto.
Ele ficou paralisado por alguns instantes para poder guardar aquele toque e o reconhecer em qualquer parte do mundo. Guardou-o. Cristina fazia o mesmo.
– Pronto! Já guardei suas feições! Disse Cristina.
Ele ainda não falava.
Passou alguns segundos e ela falou que tinha de ir embora porque já estava ficando tarde. Despediu-se de Cecílio tocando seu ombro e sumiu na escuridão.
Cecílio também resolveu ir para casa. Não tinha mais nada para fazer naquela praça. Caminhou feliz e já se preparava para amanhã.
O dia amanheceu. Ele se vestiu, se perfumou e foi à pracinha objetivando mais que nunca encontrá-la. Queria a conhecer melhor, embora já conhecesse seu melhor lado: seu toque.
Sentou-se no banco e ficou esperando. Esperou até ficar somente ele na pracinha. Ela não apareceu. Caminhou decepcionado para casa, mas com a esperança de amanhã ela aparecer.
A manhã chegou, ele fez todo seu ritual e novamente Cristina não apareceu. Ficou mais triste ainda, mas sempre alimentando a esperança de vê-la no dia seguinte. Vários dias seguintes se passaram e só o que aparecia era o toque dela em sua mente. A esperança de vê-la diminuía progressivamente. Ele sofria. Em tão pouco tempo, com poucos e pequenos encontros, Cristina havia se tornado a paixão de sua vida. Ela o fazia se sentir vivo no mundo escuro. Ela era como ele. Ele queria a conhecer melhor. Queria evoluir aquele toque. Queria beijá-la. Queria amá-la.
Anos se passaram, ele não frequentava mais a praça por conta de Cristina e vivia escuro por dentro. Nada mais o fazia sorrir. Nunca mais perguntara a alguém se via o dia. A solidão corroía seu âmago. A tristeza o cegava sentimentalmente enquanto a cegueira o cegava corporalmente. Tudo era escuro. Não tinha mais vida. Viver já não tinha mais graça. Não passava de um ser escurecido pelo destino. Mas um dia algo aconteceu e deu um basta nisso tudo.
Era quase finzinho de tarde. Cecílio tinha ido à farmácia comprar um comprimido. A rua estava movimentada. A barulheira era grande. As pessoas esbarravam-se. As sacolas de compras batiam em Cecílio. O espaço era pequeno para tanta gente. Buzinas. Buzinas. Reclamações. Brigas. O trânsito estava um inferno.
Cecílio andava devagar e estava um pouco desorientado com tanta movimentação. Sua bengalinha ia a sua frente abrindo caminho. Ele seguia rumo à farmácia quando... quando algo o paralisou. O fez perder a cabeça. Mudou seus sentidos, sua direção. Um toque. De repente, alguém havia tocado seu ombro. Era o mesmo toque. Ele o conhecia. Ele rodou, mas não havia ninguém. Chamou instintivamente por Cristina, mas ninguém respondeu. Saiu desesperado para qualquer direção. Não sabia mais para onde caminhava. Um baque. Carros buzinavam. Gente corria. Gritos. Olhares espantados e curiosos. Alguém sangrava no chão. O cheiro de vida se esvaindo era forte. O desespero tomava conta dos espectadores. Cecílio. O toque. Ele havia sido atropelado quando saiu desorientado andando na faixa de pedestre como semáforo verde. O sangue jorrava de sua boca. O toque. Sua bengala encontrava-se quebrada ao seu lado. Seu corpo endurecia vagarosamente. O toque. A vida deixava aquele corpo escuro. Cecílio morria. A vida ia-se por conta de um toque. Morria perturbado com a possibilidade de vê-la novamente. Vomitou o resto de sangue que ainda tinha em seu corpo e não enxergou mais nada como sempre fez em toda a sua vida.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Bang!


Charlote não aguentava mais aquela vida. Estava farta daqueles vestidos curtos, daqueles espartilhos que comprimiam seu tórax, os quais ela era obrigada a utilizar para formar uma falsa silhueta, visto que com a idade as coisas mudaram, principalmente em seu corpo. Detestava calçar aquelas meias longas que demoravam muito para se ajustarem as suas pernas flácidas. Há anos ela vivia nessa vida miserável.
            Sua casa, ao mesmo tempo seu local de trabalho, ficava situada às margens de uma estrada poeirenta relativamente movimentada. Era uma casa pequena, tristemente colorida de um tom alaranjado devido à poeira da estrada. Sua frente era composta por uma porta de madeira bastante desgastada que resistia bem a ação do tempo e por uma pequena janela. Charlote era uma prostituta famosa e por isso, sua casa não tinha uma placa informando que aquilo se tratava de uma casa de promiscuidade.
            Em toda a sua vida ela passou por dificuldades. Nasceu em uma fazenda miserável. Seus pais faziam tudo o que o patrão mandava e recebiam uma miséria. Ela e suas três irmãs passavam fome, mas diferente das irmãs, Charlote queria um destino melhor, passava horas a pensar nisso. Não queria ter um destino igual ao de sua mãe, D. Glória, uma pobre camponesa submissa ao marido alcoólatra que era violento e a espancava na frente das filhas.
            Desde pequena mostrara-se uma linda moça. Cresceu e tudo que apresentava alguma pequena imperfeição foi melhorado tornando-a a mais bela mulher daquela região. Tinha os cabelos ruivos quase escarlates capazes de descontrolar qualquer homem. Sua pela além de aveludada era branca como uma vela. Seus olhos azuis-esverdeados tinham, assim como os da Medusa, o poder de petrificar os espécimes masculinos. Seu rosto tinha traços angelicais que escondiam sua verdadeira personalidade. Seu corpo parecia ter sido cuidadosamente modelado. Era todo proporcional e tentador.
            Com tanta beleza foi impossível não ser cortejada. Muitos rapazes brigavam por ela, contudo apenas um ganhou o coração da moça: Billy, o filho mais novo de outro camponês ali da fazenda.
Conheceram-se quando ela lavava roupas. Ela encontrava-se toda ensopada, o que marcava bastante suas formas e que levou Billy à loucura. Sem pestanejar ele foi ao encontro da moça saber seu nome. Mas, tímida que era, afastou-se repentinamente.
– Qual a sua graça?
Recompôs-se e observou a beleza do jovem. Pegou a toalha que iria ensaboar, secou parcialmente as mãos e respondeu apertando as mãos de Billy:
– Charlote, moço.
Depois desse dia, Billy sempre aparecia com novos galanteios até que conquistou de vez o coração de Charlote. Ela passava o dia ajudando a sua mãe e rezando para que a noite chegasse, pois esta trazia consigo Billy, que sempre a levava para contar as estrelas com ele. Entre uma estrela e outra eles aproveitavam para se beijar e acabavam esquecendo onde tinham parado e tinham de recomeçar tudo novamente.
Com o passar do tempo seu amor por ele só amentou, mas ela não podia desistir de seu grande sonho, que era o de sair dali e mudar de vida. Billy tinha uma vida horrível assim como a dela e não dava sinais de que queria sair daquele lugar. Portanto, casar-se agora e ser submissa a um homem não eram seus objetivos de vida.
Decidiu então, com o coração partido e o rosto molhado por salgadas lágrimas, em um seco dia de Agosto, sair dali. Preparou a mala com o pouco que tinha – quatro vestidos, um par de sapatos e uma blusa – e esperou que o negro da noite invadisse a propriedade para que ela pudesse sair sem ser observada. A noite chegou e ela sorrateiramente saiu. Dirigiu-se até a estrada na esperança de encontrar uma carona que a levasse até a cidade. Ficou ali horas até aparecer uma caminhonete azul. O motorista, um sujeito bigodudo de chapéu marrom, perguntou com toda ousadia:
– Quer uma carona, belezinha?
Ela meio sem jeito balançou a cabeça afirmativamente.
– Está esperando o quê? Entre logo!
Ela rapidamente abriu a porta da caminhonete, sentou, colocou sobre as pernas sua mala rasgada e fechou a porta de supetão.
O homem seguiu viagem e enquanto observava aquela paisagem seca e repleta de cactos ele aproveitou para saber um pouco da vida de Charlote e o que ela iria fazer na cidade. Ficou admirado com sua vida miserável e propôs ajudá-la:
– Uma moça bonita como você terá futuro garantido na cidade. Eu vou lhe apresentar a um amigo meu e ele lhe ajudará.
Depois de quase duas horas sentada naquele banco duro sentindo o cheiro do cigarro forte do velho ela desceu em um bar. O local onde se encontrava o tal amigo do bigodudo.
– Gil, você está aí?
– Sim. Já vou aí fora.
Gil apareceu. Era um homem forte, viril e muito alto. Não tinha uma cara simpática e olhou Charlote dos pés à cabeça.
– O que achou do material? Perguntou o velho.
– Excelente! Respondeu Gil.
– Belezinha, você já está entregue e Gil saberá o que fazer com você. Garanto que aqui você não passará fome.
Gil olhou-a novamente e a mandou entrar. Daquele dia em diante sua vida mudou. Gil fez de Charlote a prostituta mais desejada daquela região. Ela teve uma vida regrada a álcool, homens e dinheiro. Esqueceu-se de sua vida miserável, mas não se esqueceu de Billy, seu amor. Agora, ela já tinha dinheiro suficiente para que os dois se casassem e vivessem confortavelmente.
Todavia, para a decepção de Charlote, o tempo passou e Billy não a procurou. Ela envelheceu e foi enxotada do empreendimento de Gil, pois os clientes procuravam as novidades. Decidiu então ir viver em uma casa isolada e continuar vivendo da prostituição. Guardou todo o dinheiro que conseguiu e continuou adquirindo mais, agora em sua velha casa.
Billy também envelheceu, deixou o bigode crescer e tornou-se um dos bandidos mais procurados do velho oeste. Nunca se casou por causa da decepção que teve com Charlote e vive dos roubos bem planejados e atrevidos. Tornou-se um forasteiro impiedoso e cruel. Matar para ele é como beber água.
Um dia, sentado em seu alpendre segurando seu chapéu de couro e afrouxando o lenço que sufocava seu pescoço, ele recebeu a visita de seu irmão mais velho que tinha ido morar na cidade no mesmo tempo em que Charlote sumiu. Ele chegou e contou muitas novidades, inclusive o que tinha acontecido ao grande amor de seu irmão. Billy ficou chocado e maquiavelicamente preparou um plano em sua cabeça. Dois dias depois disso se mandou para a cidade. Demorou um pouco, mas ele conseguiu chegar. Graças a diversas informações conseguiu encontrar a casa de Charlote.
Desceu de seu carro, firmou fortemente um revólver Colt 45 em cada mão, dirigiu-se até a porta e deu um chute tão forte que fez Charlote tremer. Ela, mais que depressa, abriu a porta e ficou chocada com o que viu. Conturbada, deu três passos para trás e reconheceu aquele sujeito. Piscou os olhos e o recepcionou com um belo sorriso. Sem se comover, Billy levantou uma das mãos, puxou o gatilho e a acertou com um tiro no coração. Ali mesmo ela caiu e endureceu com um sorriso no rosto. Billy assoprou a ponta do revólver para que o ferro esfriasse, guardou-o em um de seus bolsos, girou o outro em seu dedo indicador e também o guardou. Olhou para o corpo da prostituta, sorriu e saiu tranquilamente em seu carro rumo ao próximo assalto.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Uma história de amor


Vestiu-se ansioso. Tomou café. Chegou à escola. O sino tocou. Estava oficialmente aberto o ano letivo. Jorge rapidamente se dirigiu a sala de aula tomada por estranhos. Ninguém, absolutamente ninguém, era seu conhecido.
 A professora entrou. Logo, começaram as formalidades. Apresentações, falas, risos, timidez... Cada um era respeitado em sua singularidade. Passam-se apresentações e mais apresentações, até que chega a vez de Jorge. Com os lábios ressecados pelo nervosismo e com as pernas bambas de timidez, profere simples e rápidas palavras.
Do outro lado da sala, bem longe de nosso herói, está Maria. Linda, meiga, comunicativa e popular. Quando se apresentou, não transpareceu, nem por um minuto, seu nervosismo – se é que ela tinha. Sinceramente, acho que essa palavra nunca esteve presente na vida dessa menina.
As aulas daquele dia foram terminando e nosso herói ainda não tinha se enturmado com muita gente. Todavia, alguém naquela desgastada e velha sala tinha lhe chamado atenção.
Pronto para mais um dia de aula e disposto a ir conversar com Maria, ele entra na escola. Mas, sua timidez o faz mudar rapidamente de ideia. Entra na sala. Ela estava rodeada de amigas conversando enquanto o professor não chegava.
De sua cadeira o menino observava discretamente sua colega. O jeito como ela mexia no cabelo o fascinava. O seu sorriso fazia-o voar. Até o simples piscar de olhos da menina lhe deixava feliz.
Os dias foram passando e o garoto descobriu que estava apaixonado por Maria. E, finalmente, resolveu procurá-la. Já tinha um plano em mente: iria começar sendo amigo dela, para depois conquistá-la. E assim fez. Encorajou-se. Esqueceu a timidez. Arrumou o cabelo. Deu aquela arrumadinha básica no colarinho e foi.
Quando chegou perto dela até o seu âmago tremia, mas não deixou que isso transparecesse. Começou falando sobre uma tarefa e depois já estavam criando um vínculo. Amigos? Para a garota sim.
A cada intervalo que se passava a amizade aumentava. E assim continuaram.
Mas, Jorge – manipulado pela timidez e pelo medo – não tinha coragem de dar continuidade ao plano. Sofria sozinho. O amor e amizade coexistiam dentro daquele pequeno e frágil ser.
Ele, por medo, esqueceu o plano.
Ela, linda e sedutora, continuou a ficar mais íntima do jovem.
O tempo foi passando, as séries aumentando, a amizade se solidificando e nada mais acontecia.
Hoje, a menina virou confidente do menino que nunca contou que a ama. E, o menino ainda guarda em seu doce e frágil coração o amor que espera um dia oferecer a jovem.
Tomara que em um dia qualquer, a coragem que o possuiu no dia em que falou pela primeira vez com a garota volte, e ele possa dar continuidade ao plano já esquecido em sua mente, mas vivo em seu coração.