quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Um feliz aniversário
Estava
sentado naquela dura cadeira da recepção do hospital em um domingo angustiante
aguardando notícias de meu amiguinho Gabriel, que se encontrava na U. T. I. De
repente, uma ambulância chegou. Aquilo roubou temporariamente meu olhar e minha
atenção. Dela saiu em uma maca uma linda menininha da mesma faixa etária que
Gabriel. Loirinha e pálida deveria ter vindo de uma festa de aniversário direto
para o hospital – um chapéu colorido em formato de cone e um vermelho nariz de
palhaço pendurados em sua mão justificam minha hipótese. Atrás dos enfermeiros
corria uma mulher desmanchando-se em lágrimas que não pôde ir para o centro
cirúrgico e teve de ficar na recepção. Sentou-se ao meu lado e pôs-se a chorar.
Olhei-a timidamente e ofereci um copo d’água. Ela aceitou e quando deu o último
gole resolvi interagir:
–
O que aconteceu? Aquela é sua filha?
–
Sim, aquela é minha única filha. Era o aniversário dela... minha Isabela
completava seus doze anos até que... até que... – respirou fundo e novamente
seu rosto cobria-se de lágrimas – ela passou mal, muito mal.
–
E ela já tem algum problema?
–
Sim, ela tem insuficiência cardíaca. Ela já teve algumas crises, mas a de hoje
nem se compara as outras. A de hoje foi muito forte mesmo! Os médicos já haviam
me dito que a solução para o problema dela seria o transplante de um novo
coração, mas é muito difícil. Ela é a primeira da fila para o caso de aparecer
um transplante, mas eu não conto muito com isso. É muito difícil encontrar
alguém que seja um doador no Brasil, um país repleto de seres humanos egoístas,
mentirosos e hipócritas.
Concordei
com sua fala e continuamos, pois, sentados ali. Rezando e sem receber nenhuma
informação. Cabisbaixos, tentando alimentar os melhores pensamentos, mas assumo
que estava difícil. Os ponteiros do relógio giravam e com eles meu estômago
girava junto. Unhas? Eu não tinha mais.
Minha
aflição diminuiu quando vi o médico caminhar em minha direção. A mãe de
Gabriel, D. Zélia, que estava algumas cadeiras distantes de mim e mais aflita e
desesperada, veio correndo. O médico chegou. Sua cara não era animadora.
–
Vocês estão acompanhando o Gabriel?
–
Sim! – respondemos uníssonos.
–
Nós fizemos vários procedimentos, tentamos de tudo para reanimá-lo, mas
infelizmente Gabriel teve morte cerebral.
O
médico nem concluiu sua fala e D. Zélia caiu de joelhos gritando aos prantos.
Pedia para que trouxessem seu filho de volta. Eu? Meu rosto se desmanchava em
lágrimas e eu nem havia me dado conta. Tentava limpar e ser forte, mas a dor era
grande demais. As lágrimas descontroladamente rolavam, mas tive de me conter
para ouvir o que o médico ainda ia falar. Ele chamou a mãe de Isabela para
junto de nós e disse:
–
Seu filho se foi, D. Zélia, mas não fique triste, pois ele evitou que
tivéssemos duas crianças mortas em uma única noite. Graças ao seu ato de tornar
todos os membros de sua família doadores de órgãos, Gabriel salvou a vida de
Isabela doando seu coraçãozinho para ela – nesse momento o médico apoiou a mão
no ombro da mãe de Isabela e soltou um sorriso comportado.
D.
Zélia recompôs-se e foi fortemente abraçada pela mulher que teve a filha salva
por Gabriel. Limpando suas lágrimas ela disse:
–
Eu posso apenas imaginar a dor que você deve estar sentindo, mas quero que
saiba que eu e minha filha seremos eternamente gratas a você e ao seu filho.
Ele, um desconhecido, que nem convidado para o aniversário dela fora, deu o
melhor presente de todos: a vida.
D.
Zélia confirmou com a cabeça e veio me abraçar. Nesse momento, já controlado e
conformado, sussurrei ao seu ouvido: “não fique triste. Ele pode ter falecido,
mas seu coração ainda pulsa, e com certeza, pulsará muito mais. Pulsará sonhos,
alegrias, conquistas, enfim, uma nova vida.”
Ela
concordou comigo, limpou as lágrimas e juntos sentamos, bebemos água e ficamos
esperando para vermos como estava Isabela. Particularmente, estava doido para
ver aquela face pura sorrir cheia de vida e trazer um pouco de alegria para a
segunda-feira que se aproximava.
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
A cura
Marta
é uma mulher ímpar. Magra, alta, rancorosa, briguenta, adora uma confusão e um bom
cigarro, principalmente após a janta. Passa a vida dedicando-se ao lar e ao
marido. É uma excelente artesã. Crochê, tricô, costura. Sua principal
característica é com certeza sua personalidade um tanto agressiva
linguisticamente falando. Vive a falar palavrões e a dizer tudo o que pensa
olho no olho.
Mora
em um sobrado. Velho, grande, desgastado, rachado, sujo e desarrumado. A casa
vive de reformas. Recentemente trocaram o telhado. Até que ficou bonitinho.
Vermelho, bem vermelho! O piso está um horror! O pouco e ralo cimento que
resistiu a ação do tempo desprega do solo e cria gigantescos buracos na sala de
estar. A calçada está velha e desgastada assim como Marta. Quantas pessoas já
pisaram ali? Quantas crianças já correram ali? Quantos gols já foram
comemorados ali? Quantas fofocas já foram reveladas ali? Quantos bêbados já
dormiram ali? – quando digo bêbados refiro-me ao marido de Marta que já bebeu,
caiu e dormiu na calçada inúmeras vezes.
Marta
gosta muito de futebol. Todos os domingos põe a velha e branca cadeira de
plástico na calçada anciã, liga a televisão no máximo, pega uma bacia de
pipoca, coloca algum líquido no copo e começa a gritar loucamente assistindo ao
jogo de futebol. Grita, pula, xinga, mas não quebra a televisão, pois não vai
ser fácil comprar uma nova.
Ela não tem muitas amigas. Para falar a verdade, pouquíssimas pessoas frequentam a sua casa. Sua única amiga e frequentadora assídua de sua casa é Fátima, uma mulher enigmática, de olhos dissimulados, cheia de problemas. As duas adoram conversar e pedir conselhos uma a outra. Quando Marta precisa viajar para o Rio de Janeiro ela é quem fica cuidando da casa e trazendo comida para o marido da amiga. Ela traz o almoço e a janta e está sempre presente na casa auxiliando o homem no que ele precisar. Doa-se ao marido de Marta, Deusinho, um curandeiro viciado em álcool, que adora branco e ama o final de semana, pois bebe até a madrugada. Durante a semana trabalha muito, seu terreiro é muito procurado. É corpo possuído, é inveja, é chifre, é maldição, é amor, é tudo! O local de trabalho do homem fica atrás do velho sobrado. É um terreiro cercado por altas e frondosas mangueiras, grande e de barro vermelho, um vermelho sangrento. Durante a noite acontecem as rodas. Gritos, gritos, gritos... palmas, cânticos, danças... oferendas, preto, sangue... Todos de branco, tudo a luz de velas.
Deusinho
e Marta têm uma vida um pouco complicada. Vivem a brigar. Quando Deusinho bebe,
ela nem espera ele acordar para a confusão começar. Palavras de baixo calão
“voam”, chinelos voam, vasos voam e pratos também. A confusão só termina quando
Deusinho vai para seu terreiro e finge não ouvir nada do que a mulher berra.
Marta
sofre muito com o marido e sempre conta tudo para sua melhor amiga. Todavia,
não busca a separação por medo de ficar sozinha e ninguém a querer mais, pois
ela já está velha, 49 anos. Fátima sempre a ouve e aconselha mesmo com os
inúmeros problemas que tem – foi devido a isso que conheceu Marta e Deusinho.
Quando ela tinha brigado com o marido e parecia estar sofrendo uma maldição
resolveu procurar um curandeiro o mais rápido possível para cuidar de sua vida.
Assim, conheceu Deusinho e, diga se de passagem, adorou o que viu. A partir daí
sempre que ela está com um problema, seja ele físico ou espiritual, ela procura
Deusinho durante a noite – além de tratar dos espíritos ele também tem rezas e
garrafadas para as dores que consomem a vivacidade dos seres humanos.
Em
uma dessas noites escuras, libidinosas e neblinosas, Fátima mostrou sua real
face. Tudo estava escuro e sombrio. Fátima estava como de costume possuída pelo
desejo de possuir Deusinho. Como já era costume trocarem carícias durante a
noite e nos períodos em que a amiga estava longe, ela usaria a desculpa de
sempre – a insuportável dor que tinha em seu joelho, que a atrapalhava até para
andar. Chegou viva, os olhos brilhavam, o cabelo de tão penteado seguia o ritmo
do vento que o lambia, a pele hidratada e perfumada esperava ansiosamente pelo
toque bruto e forte da mão calejada de Deusinho, a boca estupidamente vermelha
e o vestido de tão apertado moldava uma falsa silhueta no corpo velho e gordo
da mulher.
–
Boa noite, amiga! Meu dia foi péssimo! Essa dor no meu joelho está cada vez
pior, hoje estou movimentando muito pouco minha perna esquerda.
–
Coitada! Sente que vou chamar Deusinho, ele vai rezar em seu joelho.
E
assim saiu Marta, correu a procura de Deusinho. Achou-o se perfumando e
trocando de roupa em seu terreiro.
–
Fátima está na calçada esperando por ti para rezar naquele joelho doente dela.
–
Mande ela entrar e diga que estarei esperando aqui no terreiro. Ah, não deixe
ninguém aparecer aqui enquanto ela não sair, pois hoje tentarei incorporar um
médico e tentarei curar de uma vez por todas o joelho de Fátima.
Marta
saiu e foi dar o recado à amiga. Fátima, usando de todo o seu cinismo, pediu
ajuda a Marta para chegar até o terreiro argumentando que a dor estava até
impossibilitando-a de andar. Marta deixou os dois a sós e saiu, mas sem
perceber deixou cair seu isqueiro quando voltava.
Assim
que Marta saiu os dois começaram a se curar. Vorazmente Deusinho mordia Fátima
e ela retribuía. O clima esquentou e os dois se curavam de prazer.
Marta
acabara de jantar e como de costume tinha de fumar um cigarro. Aquele fumo
envolvido por um pedaço de papel frágil acalmava-a. Pegou o cigarro, colocou a
mão no primeiro bolso e não encontrou o isqueiro. Procurou em todos os outros e
nada. Andou pela casa, conferiu no quarto, olhou na cozinha, mas nada
encontrou. Lembrou-se então, que quando foi deixar a amiga no terreiro estava
com o objeto no bolso. Como o vício é controlador ela não se conteve e foi
buscar o objeto desrespeitando a ordem do marido. “– Eu vou bem caladinha para
não atrapalhar e volto rapidinho.”
E
ela foi.
Quando
abriu a porta viu logo seu isqueiro brilhar. Agachou e pegou-o. Quando levantou
a cabeça e já ia virar às costas dirigindo-se novamente à porta seus olhos
ferveram. Ela viu o que nunca quisera ver. Deusinho satisfazia Fátima de um
jeito que nunca satisfez Marta. A pobre mulher sentia-se um lixo, uma humana
usada e acima de tudo traída. Não sabia o que fazer. Apenas saiu rapidamente e
chorou até secarem as lágrimas. Sua raiva e espontaneidade de nada lhe valeram
naquele momento. Ela ficou sem voz, sem ação e ficou com mais medo ainda de
perder seu único e miserável marido, aquele que por mais que não a consumisse
por completo deitava sempre com ela.
Chorou,
mas optou por nada fazer. Aguardou os dois saírem, despediu-se da amiga e foi
dormir junta a Deusinho. Dormiu e sonhou com o dia em que Deusinho iria
encontrar a cura para o joelho da amiga – provavelmente, no dia em que ele
enjoar de Fátima.
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
Lembranças
Escute enquanto lê:
Lembra de quando corríamos juntos de porta em porta?
De quando assustávamos os vizinhos mais velhos? De quando nos escondíamos em
nossa casinha da árvore? De quando você me olhava com um sorrisinho no canto da
boca, apertava minha bochecha e eu retribuía acariciando seu cabelo vivamente
brilhoso? Éramos duas crianças ímpares. Dois “pestinhas” como muitos diziam.
Duas almas que se completavam. Doce e salgado. Frio e calor. Razão e emoção.
Alegria e tristeza. Choro e sorriso.
Lembra do dia que doamos nossos brinquedos – o que
sobrou deles? Como crescemos do dia para
a noite!
Lembra da minha primeira carteira? De seu primeiro
salto? De quando você quase caiu na calçada tentando se equilibrar nele? Da
penugem que era minha primeira barba? Da primeira vez que saímos sozinhos? De
nossa primeira noitada? De nosso primeiro beijo, nosso primeiro “eu te amo”,
nosso namoro? De nossa primeira vez? De nossas juras? De nosso noivado? Que dia
incrível! O começo da materialização de um sentimento tão puro.
Lembra do dia mais importante de nossas vidas? De
como eu estava nervoso e como você estava linda? De como eu segurava as lágrimas?
De como você sorria e soltava as lágrimas? De nosso sonoro sim?
Lembra de nossa casa? De como você organizou tudo do
seu jeitinho? De todo o trabalho que tive? Do sofá aconchegante no qual
assistimos a diversos filmes? De nossas conquistas, nosso trabalho, nossas
contas, nossa vida de adulto?
Lembra daquela tarde? Da notícia? De como eu era o
homem mais feliz do mundo? De como eu mimei você durante os nove meses? De como
foi lindo o nascimento dela? De como passamos noites acordados?
Lembra de como envelhecemos? De como nos preocupamos
com o trabalho? De como pouco nos falávamos? De como nos cansamos de tudo? De
como a rotina estava um inferno?
Lembra de nossa primeira briga? De como você chorou?
Eu chorei escondido. Chorei muito. De como depois da primeira outras vieram e
multiplicaram-se? Como esquecer, não é?
Lembra da mala, do último olhar, da buzina? Eu
estava saindo. Foi difícil, mas foi o melhor.
Lembra? Você ainda lembra? Você ainda lembra de mim?
Lembra de nós?
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Sobre saudade
Coisinha,
estou com saudade de você. É como se um pedaço meu estivesse em um lugar
distante. Estou com saudade de seu cabelo, de seu olhar, de seu sorriso, de sua
pele, de seu jeito. Até de você mandando em mim, acredita? Queria te ter por
perto. Queria poder te abraçar. Queria desabafar. Queria seus olhos para eu
mergulhar bem fundo. Queria vê-los refletindo minha face. Queria uma alma para
me escutar. Queria te tocar, falar com gesto o quão importante você é para mim.
Essa saudade maltrata. Não sei qual o remédio, se é que tem. Talvez, o único
remédio seja você, seja te encontrar. No entanto, enquanto não corro para te
apertar, consolo-me com as palavras. Elas ajudam! Dizem o que uma boca tímida
não ousa pronunciar. Transferem para o papel os tão escondidos e pusilânimes sentimentos
de meu coração.
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
O toque
Ele
saiu do ventre de sua mãe e ao contrário das outras crianças, que choravam ao
seu redor, não enxergou as cores, as formas, a vida. Gemeu baixinho, encolheu o
pequenino corpo e debateu-se na escuridão até sentir-se envolto por dois braços
acolhedores. D. Esmeralda o colocou para dormir e guardou para si as
preocupações e convicções que só o ser mãe é capaz de ter.
Passou
sua infância na fazenda do avô convivendo com coloridíssimas borboletas,
alegres pássaros e verdes pastagens que ele sabia que existiam, mas que seus
olhos não eram capazes de enxergar. Passava a maior parte do tempo sozinho e
recluso em seu mundo escuro. As outras crianças não o incluíam em suas
brincadeiras, ao não ser na “cabra-cega”, na qual ele era sempre a cabra.
Todavia, Cecílio não se chateava por não
brincar com as outras crianças. O que ele adorava mesmo era sair sozinho e
entrar na mata, esbarrar nas árvores, sentir o cheiro da vida, ouvir cantos de
seres desconhecidos por sua visão. O que ele gostava mesmo era de se sentir
livre. Liberto dos cuidados excessivos de todos que o rodeavam. Liberdade, ele
só procurava isso. Desenvolveu-se em meio a essa liberdade.
O
tempo seguiu seu curso indesviável e Cecílio tornou-se adolescente. Mudou de
fisionomia e de endereço. Agora, mora com a mãe no Bairro das Flores Alegres.
Ainda continua recluso, ainda mais eu diria. Não tem amigos e seu único
passatempo é ir à pracinha para tentar sentir a liberdade que ele sentia na
fazenda. Contudo, o máximo que consegue é uma suave brisa com um leve frescor
perfumado de rosas tocando sua face. Por mais que tente cheirar a liberdade,
aqui ele não corre, não esbarra nas árvores, não ouve cantos de seres
desconhecidos.
Mas
sentindo ou não o cheiro da liberdade, toda manhã ele está na pracinha. E foi
em uma dessas manhãs que ele conheceu Cristina. O sol flutuava amarelo no céu
azulado. As rosas desabrochavam lentamente e as flores observavam atentas
aquele espetáculo. Algumas crianças brincavam no parquinho.
Cecílio
sentou-se no banco como de costume, cruzou as pernas e ficou balançando a
bengala desorientadamente. Alguns pombos o sobrevoaram na esperança de ganharem
migalhas do pão que ele levava a boca.
Ele continuou a morder fortemente o pão quando percebeu que não estava
sozinho naquele banco. Acomodou-se como quem marca território, mas não fez mais
que isso. Alguns minutos depois, o vento soprou e algo como longos cabelos bateram
em seu rosto. Nesse momento ele percebeu que sua companhia de banco era uma
mulher. Ficou curioso para saber como ela era, mas guardou a curiosidade para
si.
Minutos
continuaram a passar e alguém resolveu quebrar aquele silêncio. Ela, sim, ela
resolveu perguntar:
–
Você vê o dia?
Ele
desconsertadamente perguntou:
–
Você está falando comigo?
–
Sim, estou perguntando a pessoa que eu sei que está nesse banco comigo.
–
Infelizmente eu não posso lhe dizer, pois sou cego. Não vejo o dia e nem a
noite.
–
Eu também sou cega. Lhe perguntei pensando que você não era cego, pois é um
costume que tenho. Em todos os locais que ando sempre pergunto a alguém como
está o dia para que esse alguém possa me dizer e eu possa imaginar o que é
real.
–
E isso é bom?
–
É sim! Me faz sentir presente no mundo. Não me sinto tão deslocada.
–
Gostei disso. Acho que vou começar a fazer.
–
Que tal irmos procurar alguém aqui na praça que possa nos dizer?
– Gostei da ideia.
Os
dois levantaram. Cada um com sua bengala. Dirigiram-se em busca de alguém. Até
que... pararam uma senhora e perguntaram uníssonos:
–
Você vê o dia?
A
senhora respondeu:
–
Sim!
Eles
completaram:
–
Nos diga como ele está.
Calmamente
a senhora descreveu como estava o cenário que os rodeava. Terminada a descrição
eles agradeceram à senhora e saíram. Cecílio sorria. Cristina perguntou:
–
E aí? Gostou da experiência?
–
Foi muito boa. Consegui imaginar como está o dia.
Cristina
bateu a bengala em uma pedra e perguntou:
–
Posso lhe contar um segredo?
Cecílio
respondeu:
–
Pode.
Ela
prosseguiu:
– Eu pergunto as pessoas, imagino e guardo todos os dias bons como o de hoje em meu cérebro para que quando alguém me disser que o dia está ruim eu imaginá-los.
– Eu pergunto as pessoas, imagino e guardo todos os dias bons como o de hoje em meu cérebro para que quando alguém me disser que o dia está ruim eu imaginá-los.
Ele
a questionou:
–
Mas isso não é um grande segredo.
Ela
acrescentou:
–
É o segredo de minha felicidade.
–
Então, já que funciona, a partir de hoje farei isso também. Olha, já estou
contando meu mais novo segredo para você.
Cristina
gargalhou e disse que tinha de ir. Ela já havia se afastado quando Cecílio
gritou:
– Ei, qual é seu nome?
–
Cristina! E o seu?
–
Cecílio!
Cecílio
não ouviu mais nada além disso. Cristina se perdeu na escuridão e ele voltou
para casa levando consigo o desejo de conhecê-la melhor. Ela havia despertado
nele algo novo, melhor que a liberdade. Era como se ele enxergasse com o
coração. Era uma sensação nova que ele não sabia o nome por nunca tê-la
sentido.
No
dia seguinte ele colocou seu perfume em demasia e esperançoso dirigiu-se à
pracinha. Sentou no mesmo banco e quando uma criança passou perto dele ele
disse:
–
Ei, você vê o dia?
A
criança um pouco assustada falou:
–
Vejo.
O
ceguinho continuou:
–
Pois me diga como está.
A
criança panoramicamente observou o ambiente e disparou:
–
O sol hoje não está tão vivo. As nuvens estão esbranquiçadas. A grama está
verdinha. As rosas... não têm tantas rosas. As flores estão alegres, mas
poucas. A pracinha está um pouco menos movimentada.
Ao
terminar a descrição a criança disse que precisava ir brincar e saiu correndo.
Cecílio
agradeceu, mas a criança não estava mais ali para ouvir seu “Obrigado!”.
O
ceguinho permaneceu sentado naquele banco esperando que alguém – Cristina – o
fizesse companhia. Porém, esperou em vão, pois as horas passaram e ninguém
apareceu. Saiu desapontado para casa.
No
dia seguinte fez o mesmo ritual do dia anterior e foi à pracinha. Chegando,
sentou no banquinho, mas com um semblante triste, pois já não estava tão
esperançoso com a ideia de Cristina aparecer.
De
repente, alguém sentou no banco. Seu sangue ferveu. Ele pedia confiante aos
céus que ventasse para saber se era uma mulher. Mas nem foi preciso dar
trabalho aos céus, pois uma voz idosa e cansada falou:
–
Bom dia, filho. Vou sentar um pouquinho aqui para descansar, essas minhas
compras estão muito pesadas.
Pigarreando
ele não deu muita atenção à senhora. Estava frustrado.
A
senhora saiu.
Demorou,
mas quando ele menos esperava outra pessoa sentou no banco e fez a pergunta que
mudou seu dia:
–
Você vê o dia?
Cecílio
profundamente feliz e desconsertado respondeu:
–
Não vejo, eu sou Cecílio.
–
Cecílio é você mesmo? Que bom! Sentamos juntos novamente.
–
Que bom!
Cristina
balançou a bengala e docemente perguntou:
–
Posso lhe fazer um pedido?
–
Pode sim!
–
Posso tocar em você para que eu saiba como você é?
Um
virou-se para o outro e Cristina começou. Suas mãos delicadas pousaram no rosto
de Cecílio. Ela tocou seus olhos, sua sobrancelha, desceu seu nariz e parou por
alguns segundos deslizando os dedos por seus lábios até que contornou sua face.
Foi descendo as mãos e percorreu os braços dele. Parou. Cecílio, que nunca
havia sido tocado daquela maneira, estava em êxtase. Seu sangue circulava
rapidamente e o corava. Seu coração palpitava e algo que ele nunca havia
sentido antes tomava conta de seu ser: o prazer. Essa nova sensação fazia-o
homem. Ele havia descoberto o mundo. Ele agora experimentara a verdadeira
liberdade. Agora sim sabia o que era isso. Ela o havia beijado com os dedos. Tudo
havia se modificado. O toque. As sensações. O toque. O sangue corria. O toque.
Seu corpo pegava fogo na escuridão. O toque. Seu corpo experimentava o prazer.
O toque. Descobrira a vida. O toque. Tornou-se um homem liberto.
Ele ficou paralisado
por alguns instantes para poder guardar aquele toque e o reconhecer em qualquer
parte do mundo. Guardou-o. Cristina fazia o mesmo.
–
Pronto! Já guardei suas feições! Disse Cristina.
Ele
ainda não falava.
Passou
alguns segundos e ela falou que tinha de ir embora porque já estava ficando
tarde. Despediu-se de Cecílio tocando seu ombro e sumiu na escuridão.
Cecílio
também resolveu ir para casa. Não tinha mais nada para fazer naquela praça.
Caminhou feliz e já se preparava para amanhã.
O
dia amanheceu. Ele se vestiu, se perfumou e foi à pracinha objetivando mais que
nunca encontrá-la. Queria a conhecer melhor, embora já conhecesse seu melhor
lado: seu toque.
Sentou-se
no banco e ficou esperando. Esperou até ficar somente ele na pracinha. Ela não
apareceu. Caminhou decepcionado para casa, mas com a esperança de amanhã ela
aparecer.
A
manhã chegou, ele fez todo seu ritual e novamente Cristina não apareceu. Ficou
mais triste ainda, mas sempre alimentando a esperança de vê-la no dia seguinte.
Vários dias seguintes se passaram e só o que aparecia era o toque dela em sua
mente. A esperança de vê-la diminuía progressivamente. Ele sofria. Em tão pouco
tempo, com poucos e pequenos encontros, Cristina havia se tornado a paixão de
sua vida. Ela o fazia se sentir vivo no mundo escuro. Ela era como ele. Ele
queria a conhecer melhor. Queria evoluir aquele toque. Queria beijá-la. Queria
amá-la.
Anos
se passaram, ele não frequentava mais a praça por conta de Cristina e vivia escuro
por dentro. Nada mais o fazia sorrir. Nunca mais perguntara a alguém se via o
dia. A solidão corroía seu âmago. A tristeza o cegava sentimentalmente enquanto
a cegueira o cegava corporalmente. Tudo era escuro. Não tinha mais vida. Viver
já não tinha mais graça. Não passava de um ser escurecido pelo destino. Mas um
dia algo aconteceu e deu um basta nisso tudo.
Era
quase finzinho de tarde. Cecílio tinha ido à farmácia comprar um comprimido. A
rua estava movimentada. A barulheira era grande. As pessoas esbarravam-se. As
sacolas de compras batiam em Cecílio. O espaço era pequeno para tanta gente.
Buzinas. Buzinas. Reclamações. Brigas. O trânsito estava um inferno.
Cecílio andava
devagar e estava um pouco desorientado com tanta movimentação. Sua bengalinha
ia a sua frente abrindo caminho. Ele seguia rumo à farmácia quando... quando
algo o paralisou. O fez perder a cabeça. Mudou seus sentidos, sua direção. Um
toque. De repente, alguém havia tocado seu ombro. Era o mesmo toque. Ele o
conhecia. Ele rodou, mas não havia ninguém. Chamou instintivamente por
Cristina, mas ninguém respondeu. Saiu desesperado para qualquer direção. Não
sabia mais para onde caminhava. Um baque. Carros buzinavam. Gente corria.
Gritos. Olhares espantados e curiosos. Alguém sangrava no chão. O cheiro de
vida se esvaindo era forte. O desespero tomava conta dos espectadores. Cecílio.
O toque. Ele havia sido atropelado quando saiu desorientado andando na faixa de
pedestre como semáforo verde. O sangue jorrava de sua boca. O
toque. Sua bengala encontrava-se quebrada ao seu lado. Seu corpo endurecia
vagarosamente. O toque. A vida deixava aquele corpo escuro. Cecílio morria. A
vida ia-se por conta de um toque. Morria perturbado com a possibilidade de
vê-la novamente. Vomitou o resto de sangue que ainda tinha em seu corpo e não
enxergou mais nada como sempre fez em toda a sua vida.quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Bang!
Charlote não aguentava mais aquela vida. Estava
farta daqueles vestidos curtos, daqueles espartilhos que comprimiam seu tórax,
os quais ela era obrigada a utilizar para formar uma falsa silhueta, visto que
com a idade as coisas mudaram, principalmente em seu corpo. Detestava calçar
aquelas meias longas que demoravam muito para se ajustarem as suas pernas
flácidas. Há anos ela vivia nessa vida miserável.
Sua casa, ao mesmo tempo seu local
de trabalho, ficava situada às margens de uma estrada poeirenta relativamente
movimentada. Era uma casa pequena, tristemente colorida de um tom alaranjado
devido à poeira da estrada. Sua frente era composta por uma porta de madeira
bastante desgastada que resistia bem a ação do tempo e por uma pequena janela.
Charlote era uma prostituta famosa e por isso, sua casa não tinha uma placa
informando que aquilo se tratava de uma casa de promiscuidade.
Em toda a sua vida ela passou por
dificuldades. Nasceu em uma fazenda miserável. Seus pais faziam tudo o que o
patrão mandava e recebiam uma miséria. Ela e suas três irmãs passavam fome, mas
diferente das irmãs, Charlote queria um destino melhor, passava horas a pensar
nisso. Não queria ter um destino igual ao de sua mãe, D. Glória, uma pobre
camponesa submissa ao marido alcoólatra que era violento e a espancava na
frente das filhas.
Desde pequena mostrara-se uma linda
moça. Cresceu e tudo que apresentava alguma pequena imperfeição foi melhorado
tornando-a a mais bela mulher daquela região. Tinha os cabelos ruivos quase
escarlates capazes de descontrolar qualquer homem. Sua pela além de aveludada
era branca como uma vela. Seus olhos azuis-esverdeados tinham, assim como os da
Medusa, o poder de petrificar os espécimes masculinos. Seu rosto tinha traços
angelicais que escondiam sua verdadeira personalidade. Seu corpo parecia ter
sido cuidadosamente modelado. Era todo proporcional e tentador.
Com tanta beleza foi impossível não
ser cortejada. Muitos rapazes brigavam por ela, contudo apenas um ganhou o
coração da moça: Billy, o filho mais novo de outro camponês ali da fazenda.
Conheceram-se quando ela lavava roupas. Ela
encontrava-se toda ensopada, o que marcava bastante suas formas e que levou
Billy à loucura. Sem pestanejar ele foi ao encontro da moça saber seu nome.
Mas, tímida que era, afastou-se repentinamente.
– Qual a sua graça?
Recompôs-se e observou a beleza do jovem. Pegou a
toalha que iria ensaboar, secou parcialmente as mãos e respondeu apertando as
mãos de Billy:
– Charlote, moço.
Depois desse dia, Billy sempre aparecia com novos
galanteios até que conquistou de vez o coração de Charlote. Ela passava o dia
ajudando a sua mãe e rezando para que a noite chegasse, pois esta trazia
consigo Billy, que sempre a levava para contar as estrelas com ele. Entre uma estrela
e outra eles aproveitavam para se beijar e acabavam esquecendo onde tinham
parado e tinham de recomeçar tudo novamente.
Com o passar do tempo seu amor por ele só amentou, mas
ela não podia desistir de seu grande sonho, que era o de sair dali e mudar de
vida. Billy tinha uma vida horrível assim como a dela e não dava sinais de que
queria sair daquele lugar. Portanto, casar-se agora e ser submissa a um homem não
eram seus objetivos de vida.
Decidiu então, com o coração partido e o rosto
molhado por salgadas lágrimas, em um seco dia de Agosto, sair dali. Preparou a
mala com o pouco que tinha – quatro vestidos, um par de sapatos e uma blusa – e
esperou que o negro da noite invadisse a propriedade para que ela pudesse sair
sem ser observada. A noite chegou e ela sorrateiramente saiu. Dirigiu-se até a
estrada na esperança de encontrar uma carona que a levasse até a cidade. Ficou
ali horas até aparecer uma caminhonete azul. O motorista, um sujeito bigodudo
de chapéu marrom, perguntou com toda ousadia:
– Quer uma carona, belezinha?
Ela meio sem jeito balançou a cabeça
afirmativamente.
– Está esperando o quê? Entre logo!
Ela rapidamente abriu a porta da caminhonete,
sentou, colocou sobre as pernas sua mala rasgada e fechou a porta de supetão.
O homem seguiu viagem e enquanto observava aquela
paisagem seca e repleta de cactos ele aproveitou para saber um pouco da vida de
Charlote e o que ela iria fazer na cidade. Ficou admirado com sua vida
miserável e propôs ajudá-la:
– Uma moça bonita como você terá futuro garantido na
cidade. Eu vou lhe apresentar a um amigo meu e ele lhe ajudará.
Depois de quase duas horas sentada naquele banco
duro sentindo o cheiro do cigarro forte do velho ela desceu em um bar. O local
onde se encontrava o tal amigo do bigodudo.
– Gil, você está aí?
– Sim. Já vou aí fora.
Gil apareceu. Era um homem forte, viril e muito
alto. Não tinha uma cara simpática e olhou Charlote dos pés à cabeça.
– O que achou do material? Perguntou o velho.
– Excelente! Respondeu Gil.
– Belezinha, você já está entregue e Gil saberá o
que fazer com você. Garanto que aqui você não passará fome.
Gil olhou-a novamente e a mandou entrar. Daquele dia
em diante sua vida mudou. Gil fez de Charlote a prostituta mais desejada
daquela região. Ela teve uma vida regrada a álcool, homens e dinheiro.
Esqueceu-se de sua vida miserável, mas não se esqueceu de Billy, seu amor. Agora,
ela já tinha dinheiro suficiente para que os dois se casassem e vivessem
confortavelmente.
Todavia, para a decepção de Charlote, o tempo passou
e Billy não a procurou. Ela envelheceu e foi enxotada do empreendimento de Gil,
pois os clientes procuravam as novidades. Decidiu então ir viver em uma casa
isolada e continuar vivendo da prostituição. Guardou todo o dinheiro que
conseguiu e continuou adquirindo mais, agora em sua velha casa.
Billy também envelheceu, deixou o bigode crescer e
tornou-se um dos bandidos mais procurados do velho oeste. Nunca se casou por causa
da decepção que teve com Charlote e vive dos roubos bem planejados e atrevidos.
Tornou-se um forasteiro impiedoso e cruel. Matar para ele é como beber água.
Um dia, sentado em seu alpendre segurando seu chapéu
de couro e afrouxando o lenço que sufocava seu pescoço, ele recebeu a visita de
seu irmão mais velho que tinha ido morar na cidade no mesmo tempo em que
Charlote sumiu. Ele chegou e contou muitas novidades, inclusive o que tinha
acontecido ao grande amor de seu irmão. Billy ficou chocado e maquiavelicamente
preparou um plano em sua cabeça. Dois dias depois disso se mandou para a
cidade. Demorou um pouco, mas ele conseguiu chegar. Graças a diversas
informações conseguiu encontrar a casa de Charlote.
Desceu de seu carro, firmou fortemente um revólver
Colt 45 em cada mão, dirigiu-se até a porta e deu um chute tão forte que fez
Charlote tremer. Ela, mais que depressa, abriu a porta e ficou chocada com o
que viu. Conturbada, deu três passos para trás e reconheceu aquele sujeito.
Piscou os olhos e o recepcionou com um belo sorriso. Sem se comover, Billy
levantou uma das mãos, puxou o gatilho e a acertou com um tiro no coração. Ali
mesmo ela caiu e endureceu com um sorriso no rosto. Billy assoprou a ponta do
revólver para que o ferro esfriasse, guardou-o em um de seus bolsos, girou o
outro em seu dedo indicador e também o guardou. Olhou para o corpo da
prostituta, sorriu e saiu tranquilamente em seu carro rumo ao próximo assalto.
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
Uma história de amor
Vestiu-se ansioso. Tomou café. Chegou à
escola. O sino tocou. Estava oficialmente aberto o ano letivo. Jorge
rapidamente se dirigiu a sala de aula tomada por estranhos. Ninguém,
absolutamente ninguém, era seu conhecido.
A
professora entrou. Logo, começaram as formalidades. Apresentações, falas,
risos, timidez... Cada um era respeitado em sua singularidade. Passam-se
apresentações e mais apresentações, até que chega a vez de Jorge. Com os lábios
ressecados pelo nervosismo e com as pernas bambas de timidez, profere simples e
rápidas palavras.
Do outro lado da sala, bem longe de
nosso herói, está Maria. Linda, meiga, comunicativa e popular. Quando se
apresentou, não transpareceu, nem por um minuto, seu nervosismo – se é que ela
tinha. Sinceramente, acho que essa palavra nunca esteve presente na vida dessa
menina.
As aulas daquele dia foram terminando e
nosso herói ainda não tinha se enturmado com muita gente. Todavia, alguém
naquela desgastada e velha sala tinha lhe chamado atenção.
Pronto para mais um dia de aula e disposto
a ir conversar com Maria, ele entra na escola. Mas, sua timidez o faz mudar
rapidamente de ideia. Entra na sala. Ela estava rodeada de amigas conversando
enquanto o professor não chegava.
De sua cadeira o menino observava
discretamente sua colega. O jeito como ela mexia no cabelo o fascinava. O seu
sorriso fazia-o voar. Até o simples piscar de olhos da menina lhe deixava
feliz.
Os dias foram passando e o garoto
descobriu que estava apaixonado por Maria. E, finalmente, resolveu procurá-la.
Já tinha um plano em mente: iria começar sendo amigo dela, para depois
conquistá-la. E assim fez. Encorajou-se. Esqueceu a timidez. Arrumou o cabelo.
Deu aquela arrumadinha básica no colarinho e foi.
Quando chegou perto dela até o seu âmago
tremia, mas não deixou que isso transparecesse. Começou falando sobre uma
tarefa e depois já estavam criando um vínculo. Amigos? Para a garota sim.
A cada intervalo que se passava a
amizade aumentava. E assim continuaram.
Mas, Jorge – manipulado pela timidez e
pelo medo – não tinha coragem de dar continuidade ao plano. Sofria sozinho. O
amor e amizade coexistiam dentro daquele pequeno e frágil ser.
Ele, por medo, esqueceu o plano.
Ela, linda e sedutora, continuou a ficar
mais íntima do jovem.
O tempo foi passando, as séries
aumentando, a amizade se solidificando e nada mais acontecia.
Hoje, a menina virou confidente do
menino que nunca contou que a ama. E, o menino ainda guarda em seu doce e
frágil coração o amor que espera um dia oferecer a jovem.
Tomara que em um dia qualquer, a coragem
que o possuiu no dia em que falou pela primeira vez com a garota volte, e ele
possa dar continuidade ao plano já esquecido em sua mente, mas vivo em seu
coração.






